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Crítica | O Outro Lado das Redes

Foto do escritor: Gustavo Pestana
Gustavo Pestana
há 2 dias
4 min de leitura

2026 | 1 h 52 min | Biografia – Drama – Suspense


O Outro Lado das Redes (Sony Pictures/Divulgação)
(Sony Pictures/Divulgação)

A continuação espiritual de A Rede Social (2010) chega trazendo novas polêmicas envolvendo Mark Zuckerberg e o Facebook. Baseado em uma história real, o filme retrata os bastidores do escândalo conhecido como The Facebook Files, uma série de reportagens publicada pelo jornal The Wall Street Journal em 2021. O Outro Lado das Redes coloca em evidência um problema que preocupa cada vez mais os usuários: a privacidade dos dados e a maneira como os algoritmos, desenvolvidos para manter as pessoas conectadas, influenciam comportamentos e moldam personalidades, sem considerar os impactos que podem causar.


A história é perturbadora, e a maneira como o filme apresenta os acontecimentos e as decisões de Mark Zuckerberg e dos demais responsáveis pelo Facebook torna tudo ainda mais assustador. Afinal, os fatos retratados têm como base acontecimentos reais. O descaso com os usuários, a forma como os alertas são ignorados e o abandono de qualquer preocupação moral em nome do lucro máximo são devastadores. Jeremy Strong interpreta Mark com uma atuação contida e uma expressão quase impenetrável, transmitindo uma frieza que torna suas interações com as pessoas ao redor ainda mais revoltantes e inquietantes.

(Sony Pictures/Divulgação)


Embora o cerne da história seja sobre as decisões de Mark e a forma como o Facebook funciona, o longa é contado através da investigação jornalística conduzida pelo The Wall Street Journal. Nesse contexto, Jeremy Allen White interpreta Jeff Horwitz, o repórter responsável pela apuração e publicação da matéria, enquanto Mikey Madison vive Frances Haugen, a ex-funcionária do Facebook que expôs os problemas da plataforma e forneceu documentos fundamentais para a investigação.


Ambos entregam atuações excelentes, transmitindo toda a carga dramática e emocional de seus personagens à medida que as revelações sobre o Facebook vêm à tona. O impacto das descobertas cresce gradualmente, acompanhado pelo desgaste emocional daqueles que se veem envolvidos na exposição de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

(Sony Pictures/Divulgação)


A narrativa é construída de maneira não linear, alternando entre acontecimentos de 2019, 2020 e 2021. O filme apresenta simultaneamente os bastidores da investigação jornalística, a preparação de Mark para prestar depoimento e os eventos relacionados à invasão do Capitólio dos Estados Unidos, no início de 2021. A trama se encerra com o depoimento de Frances, que expõe os perigos representados pela plataforma e reforça a dimensão dos problemas apresentados ao longo da história.


O único aspecto que considero negativo é a maneira como o longa retrata o Facebook desde o início. Em diversos momentos, a empresa parece funcionar como uma grande vilã, enquanto seus funcionários são apresentados como pessoas que compactuam com as práticas questionadas. Essa abordagem cria uma atmosfera quase de seita religiosa dentro da organização. Embora a dinâmica corporativa retratada possa remeter a esse tipo de comportamento, acredito que a história teria um impacto ainda mais interessante se deixasse mais espaço para a interpretação do público sobre as decisões e os dilemas apresentados.


Não se trata de passar pano para as ações de Mark Zuckerberg ou do Facebook, afinal não tem como dizer que o filme está exagerando, já que é baseado em acontecimentos reais com provas que compravam toda a história, mas de apresentar os acontecimentos de maneira que os espectadores possam refletir sobre os fatos e tirar suas próprias conclusões. Ao conduzir o público de forma tão incisiva em determinada direção, o filme acaba reduzindo parte da complexidade moral de uma história que, por si só, já oferece motivos suficientes para questionamentos.

(Sony Pictures/Divulgação)


Fora isso, O Outro Lado das Redes é um filme excelente. Incômodo do início ao fim e extremamente atual, principalmente no momento em que vivemos hoje no Brasil, o longa expõe de maneira direta os efeitos das decisões da empresa e a forma como a plataforma lida com seus usuários. É importante considerar que a narrativa adota uma perspectiva crítica bastante definida, mas, diante da quantidade de documentos e evidências que fundamentaram o escândalo, torna-se difícil não desenvolver uma profunda desconfiança em relação à rede social.


Entretanto, o aspecto que mais me impactou foi a mensagem transmitida pela frase final do filme, que sintetiza uma das características mais inquietantes do mundo corporativo: a capacidade de seguir em frente sem necessariamente assumir as consequências do passado.


Após a divulgação dos arquivos, a exposição pública e toda a repercussão envolvendo a invasão do Capitólio, o Facebook anunciou a mudança do nome de sua empresa para Meta, unificando várias vertentes da empresa em uma coisa só. A alteração marcou uma nova fase na estratégia corporativa, mas também permite uma interpretação bastante simbólica: os problemas pertenciam ao Facebook, enquanto a Meta seria algo diferente, com outra identidade e outra proposta. Pelo menos na aparência, seria possível começar de novo e deixar as controvérsias para trás.


O detalhe mais perturbador é que, apesar da mudança de nome e de posicionamento, as pessoas que comandavam a empresa continuaram no centro das decisões. No fim, O Outro Lado das Redes deixa uma reflexão amarga sobre responsabilidade corporativa, privacidade digital e o poder das grandes empresas sobre a população mundial.

Nota

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