Crítica | Lanternas

2026 | 2 h | Ação – Policial – Drama – Mistério – Suspense

A tão aguardada série Lanternas finalmente concluiu sua primeira temporada, entregando uma trama repleta de mistérios, intrigas e decisões que certamente seriam (e foram) muito questionadas pelos fãs dos personagens.
Escrita por Tom King, Damon Lindelof e Chris Mundy, a série promoveu diversas mudanças na cronologia de acontecimentos e no desenvolvimento de determinados personagens. Ainda assim, a essência e a bússola moral de cada um deles foram preservadas, e, para mim, esse é o ponto mais importante em uma adaptação.
Mas, antes que eu comece a elogiar as partes que eu gostei da série, sei que você provavelmente está lendo esse texto querendo conhecer os pontos negativos. Afinal, mesmo com o enorme sucesso de audiência, alcançando uma média global de 19 milhões de espectadores por episódio, a produção também foi alvo de muitas críticas negativas que ganharam bastante repercussão e podem até criar a falsa impressão de que a série não é boa.
Então, vamos aos tais pontos negativos.
(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
A falta de construtos
Uma das reclamações mais frequentes está relacionada à pouca utilização dos construtos e dos próprios anéis. E, por mais que essa crítica seja verdadeira, não acredito que a série tenha prometido muito mais do que aquilo que entregou.
Como fã, obviamente gostaria de ter visto mais construtos. Poder acompanhar de forma mais intensa uma das principais características dos Lanternas Verdes teria sido maravilhoso. Porém, não consigo classificar a pouca utilização desse elemento como um problema significativo.
A história escolhida pela série não exigia uma presença constante desse recurso, e o mistério apresentado ao longo dos episódios foi suficiente para me fazer comprar aquela narrativa. O foco estava muito mais na investigação, nos personagens e na construção do universo do que em grandes demonstrações de poder.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
Hal Jordan
Outro ponto que não consigo compreender é a reclamação em relação ao Hal Jordan.
Kyle Chandler entregou uma ótima versão do personagem: mais velho, amargurado e marcado pelas experiências que viveu. Essa abordagem funcionou especialmente bem quando colocada ao lado da interpretação de Aaron Pierre como John Stewart.
A dinâmica entre os dois é, para mim, um dos grandes acertos da temporada. A relação funciona tanto para o desenvolvimento do mistério quanto para a construção da personalidade de John, que, com o encerramento da temporada, fica claramente estabelecido como o verdadeiro foco da história.
O que realmente me incomodou foi a maneira como a série desperdiça algumas oportunidades de aprofundar elementos, situações e personagens relacionados à trajetória de Hal.
Um exemplo é a participação de Carol Ferris (Amie MacKenzie). Nos quadrinhos, ela é um importante interesse amoroso de Hal, mas também possui uma identidade muito mais relevante dentro do universo dos Lanternas: Safira Estrela. Pela maneira como a personagem aparece em um único episódio e pelo pouco espaço que recebe, e pela forma como se apresentou e apareceu para o público, acredito que podemos assumir que, pelo menos neste momento, essa versão não é uma Lanterna.
Outros elementos semelhantes também me incomodaram, principalmente porque Hal realmente morre ao final da temporada. Isso cria a sensação de que algumas dessas possibilidades simplesmente não serão exploradas daqui para frente, ou que suas origens precisarão ser modificadas.
Existe, claro, a possibilidade de que tudo isso seja mostrado posteriormente como acontecimentos do passado, talvez em algum projeto focado na juventude de Hal Jordan como Lanterna da Terra, o que na prática seria um retcon, recurso que normalmente não funciona muito bem e traz mais problemas do que soluções, e nesse caso como estamos no início do universo não deveria ser necessário. Mas, neste momento, a sensação que fica é que algumas oportunidades foram deixadas de lado e não serão mais aproveitadas.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
A falta de alienígenas
A pouca diversidade alienígena também me incomoda.
Não termos sequer uma visão realmente clara de diferentes espécies extraterrestres ao longo da série deixa evidente uma das limitações da produção: o orçamento. E existe uma questão ainda mais delicada, já que Lanternas faz parte do DCU. Criar criaturas com um visual mais limitado agora poderia significar estabelecer um padrão visual que precisaria ser mantido em futuras aparições.
Ainda assim, acredito que existiam maneiras de contornar isso.
Algumas situações específicas poderiam apresentar, mesmo que rapidamente, versões mais alienígenas desses personagens. Uma aparição em um ambiente mais escuro, uma cena mais espacial ou até uma revelação rápida já ajudariam a trazer um pouco mais desse aspecto de ficção científica para a narrativa.
A ideia de manter o mistério sobre quem é ou não um alienígena funciona muito bem durante a investigação. O problema surge depois que descobrimos a identidade de cada personagem. Nesse momento, mostrar a verdadeira aparência dessas criaturas poderia reforçar justamente o fato de que estamos diante de seres de outros mundos.
Depois de certo ponto, ver praticamente todos com aparência humana começa a cansar e diminui o impacto da própria existência de alienígenas naquele universo.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
Mas o principal problema da temporada, para mim, está na queda de qualidade ao longo dos episódios. E isso está diretamente ligado à maneira como a série estrutura seus mistérios.
Quando começamos a temporada, temos John treinando para substituir Hal como Lanterna e, ao mesmo tempo, o mistério envolvendo a morte de alguns alienígenas em Rushville.
Conforme os episódios avançam, somos apresentados ao passado de John e ao envolvimento dele e de sua família com o legado dos Lanternas Verdes. Isso adiciona um peso maior à relação entre John e Hal, enquanto o mistério de Rushville continua se desenvolvendo e descobrimos quem é o Caçador Cósmico e quais são seus objetivos.
Porém, é importante ressaltar que ainda no primeiro episódio, somos apresentados a uma grande revelação: a morte de Hal.
A partir daquele momento, essa informação se transforma em um elemento que pode ser explorado a qualquer momento, mesmo que o acontecimento esteja situado dez anos à frente da história principal.
Quando chegamos à metade da temporada, temos o que com certeza é o ápice da trama. O Caçador Cósmico já foi revelado, Rushville entra em colapso e John finalmente assume o anel de Hal, criando a expectativa de que ele finalmente se tornará o Lanterna Verde.
E justamente nesse momento que, para mim, a história começa a perder força.
John desiste de ser um Lanterna e devolve o anel para a Anciã. Hal é preso pelos crimes que cometeu em Rushville e, aparentemente, toda a situação está resolvida, mesmo que não de maneira totalmente positiva.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
A partir da conclusão desse arco, a série pula dez anos no futuro, e vemos John vivendo uma vida relativamente tranquila e feliz como arquiteto, trabalhando ao lado de seu irmão e vivendo como uma pessoa que tem propósitos maiores do que somente ser um Lanterna Verde. Até que recebe uma ligação informando sobre a morte de Hal, que estava vivendo justamente em Rushville, o local onde toda essa confusão que vimos no primeiro arco aconteceu.
E, de repente, temos um novo mistério para desvendarmos: quem matou Hal Jordan e qual é a ligação dessa morte com os acontecimentos do passado?
O problema é que a resolução desse segundo mistério é muito fraca.
O antagonista fica evidente desde cedo, e sua motivação é extremamente frágil quando comparada ao restante da temporada. John descobre toda a verdade, mas nada realmente satisfatório acontece como consequência.
O único elemento realmente relevante nessa parte da história é John ficar com o anel de Hal e com uma bateria de poder criada por Sinestro, que está escondido em um planeta que tem uma atmosfera que de medo muito grande, criando uma pequena faísca para o surgimento da Tropa dos Lanternas Amarelos.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
Mas o pior, para mim, está literalmente no encerramento da temporada.
Quando John finalmente carrega seu anel utilizando um juramento criado por ele e sai voando, a cena não apresenta nada além de um homem voando. A aura de energia ao redor do personagem não existe e não temos nem que seja um vislumbre do traje que ele utilizará a partir de agora.
E eu sei que, neste universo, os Lanternas não necessariamente voam com energia ao redor do corpo. O problema é que a própria temporada deixou claro que John não sabia como voar.
Além disso, seu anel nasce de uma bateria não oficial que mistura o poder da Força de Vontade Verde com o medo Amarelo, e essas diferenças fazem a oportunidade perfeita para estabelecer algo diferente dos demais Lanternas e reforçar a característica única de John, ele ter uma aura de energia em volta de seu corpo seria uma justificativa para o fato dele não saber voas sem, uma justificativa que não desmerece sua capacidade comparada aos demais e que o deixaria mais parecido com a versão mais popular do personagem que é a versão da animação Liga da Justiça.
É importante lembrar que estamos falando de um personagem extremamente criativo, com uma força de vontade excepcional, a ponto de conseguir manter seus construtos mesmo depois de retirar o anel. Existe, portanto, uma justificativa narrativa perfeita para que essa aura de energia seja uma característica somente desse lanterna e para que seu traje também pudesse ser formado por energia.
E, quando falo em um traje de energia, não estou defendendo algo semelhante ao uniforme de CGI utilizado no filme do Ryan Reynolds. Estou falando de um traje que simplesmente surgisse quando John quisesse utilizá-lo, sendo tratado como mais um construto criado pelo próprio anel, similar a projeção holográfica de Hal jovem que vemos em diversos momentos na série.
Seria uma maneira simples de diferenciar visualmente John dos demais Lanternas e, ao mesmo tempo, reforçar suas características como personagem.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
A escolha de trabalhar com dois grandes mistérios dentro de uma mesma temporada acabou prejudicando um deles.
O primeiro mistério, envolvendo Rushville, o Caçador Cósmico e o passado de John, possui muito mais força e consegue construir uma narrativa progressivamente mais interessante. Já o segundo, relacionado à morte de Hal, não consegue alcançar o mesmo nível.
Por isso, não me surpreende que muitos fãs tenham ficado frustrados com um encerramento que não entrega a mesma força dos episódios anteriores. O curioso é que isso acontece justamente em uma série que, apesar das críticas, foi um enorme sucesso de audiência.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
Apesar de todas essas ressalvas, eu particularmente saio da temporada muito mais interessado nos acertos do que nos erros.
Reconheço que algumas escolhas me incomodaram, principalmente quando a série opta por não aproveitar determinadas situações ou simplesmente descarta possibilidades que poderiam enriquecer o universo dos Lanternas em favor da construção de John Stewart.
Porém, considerando que John provavelmente será o principal Lanterna do DCU, gosto muito da maneira como o personagem foi desenvolvido.
E tenho absoluta convicção de que a escalação de Aaron Pierre foi uma das melhores decisões da produção.
O ator construiu uma versão de John que me passa total confiança para o futuro. A interpretação funciona dentro do contexto apresentado pela série e me deixa tranquilo sobre a possibilidade de o personagem funcionar em diferentes histórias, formatos e com outros personagens.
Tanto que o próximo filme do Superman terá a participação do John na história, e realmente espero que utilizando um uniforme dos Lanternas, mesmo que ele não se considere um Lanterna Verde.

(Warner Bros. Pictures/HBO Max/Divulgação)
Para finalizar, quero fazer um disclaimer sobre os “fãs” que estão fazendo campanhas e reclamando de maneira extremamente agressiva e desproporcionais.
Uma adaptação sempre envolve mudanças e escolhas narrativas. Seguir fielmente o material original (neste caso, os quadrinhos) é praticamente impossível, principalmente porque existem décadas de histórias, diferentes interpretações dos personagens e inúmeras versões do mesmo conceito.
Por isso, quando uma adaptação escolhe um caminho diferente daquele que você gostaria, é importante analisar o contexto da obra em vez de simplesmente julgá-la com base na expectativa criada sobre aquilo que você imaginava que o produto deveria entregar.
Isso não significa que você precisa gostar de tudo.
É completamente válido não gostar de determinadas escolhas, apontar problemas e fazer críticas. O importante é separar aquilo que a produção realmente fez daquilo que você gostaria que ela tivesse feito.
E eu sei que isso é muito difícil.
Como fã, também fico muito mais propenso a reclamar quando uma produção não alcança minhas expectativas ou segue um caminho diferente daquele que eu imaginava. A diferença é que tento avaliar a obra a partir daquilo que ela efetivamente se propôs a entregar, e não apenas daquilo que eu gostaria que tivesse acontecido.
No fim das contas, Lanternas está longe de ser uma série perfeita, mas também está muito distante de ser o desastre que parte das críticas faz parecer. A primeira temporada apresenta uma visão própria para o universo dos Lanternas, constrói uma ótima base para John Stewart e deixa algumas possibilidades interessantes para o futuro do DCU e para o futuro da série, que embora não tenha oficialmente anunciado a segunda temporada já está em desenvolvimento, e pelos rumores recentes, com novos roteiristas.







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