Crítica | Digger

2026 | 2 h 9 min | Comédia – Drama
[ ATENÇÃO ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS ]

O mais novo projeto de Tom Cruise me surpreendeu bastante. Digger é um filme completamente diferente do que o trailer vende, e sua história se mostra muito mais complexa e profunda do que aparenta à primeira vista.
Pelos trailers, a história me parecia uma comédia completamente fora da realidade, apresentando um homem egoísta, egocêntrico, com traços de psicopatia e uma forte falta de empatia chamado Digger (Tom Cruise). A narrativa aparentava girar em torno de um acidente provocado por ele devido à falta de respeito pela vida humana e ao foco absoluto no lucro, acompanhado por uma atuação exagerada de Cruise em uma história caótica e cheia de galhofas. Mas o filme não é isso, pelo menos, não apenas isso.
A história ainda passa por todos esses elementos, mas Cruise não é Digger. Ele interpreta um ator que está vivendo Digger em uma peça de teatro, baseada em acontecimentos reais naquele universo. Digger, portanto, realmente existiu, mas não é exatamente o homem que estamos vendo em cena.
O filme utiliza uma série de artimanhas para misturar a encenação da peça com a realidade. Em determinados momentos, vemos a peça acontecendo como se fosse um filme; em outros, acompanhamos os bastidores dessa produção, onde informações fundamentais para compreender a história são apresentadas.
Essa forma de contar a narrativa é bastante confusa. Na primeira vez em que o filme se desprende da história de Digger e nos leva para o mundo “real”, fiquei completamente perdido. Até aquele momento, acreditava que estava entendendo a proposta, mas, depois dessa quebra de expectativa, voltei para a estaca zero. Na verdade, acho que fiquei até abaixo dela, porque tudo o que acreditava ter compreendido foi quebrado bem diante dos meus olhos.
Porém, depois que você entende a dinâmica e começa a perceber o que o filme realmente quer contar, tudo passa a fazer sentido e se torna muito interessante. Digger exige atenção e, principalmente, disposição para compreender o que está acontecendo por trás daquela estrutura pouco convencional.
Digger (Warner Bros. Pictures/Divulgação)
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Por conta dessa dinâmica, o roteiro se torna o principal elemento da produção, e devo dizer que ele é impecável. Os diálogos são excelentes, e as situações abordadas são tão surreais quanto, de certa forma, próximas da realidade. Tudo isso é acompanhado por uma sequência de atuações perturbadoras e, ao mesmo tempo, deslumbrantes, que fazem o filme subir de nível rapidamente.
O elenco, aliás, é repleto de nomes capazes de entregar performances marcantes. Tom Cruise, John Goodman, Michael Stuhlbarg, Riz Ahmed, Sandra Hüller e Jesse Plemons são apenas alguns dos destaques. Mas preciso ressaltar especialmente Tom Cruise. A diferença entre Digger e o ator que o interpreta é drástica, e a maneira como a personalidade de Cruise desaparece completamente dentro do personagem me surpreendeu bastante. Já fazia algum tempo que eu não via o ator realmente desaparecer dentro de um papel.
Digger (Warner Bros. Pictures/Divulgação)
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Outra atuação que merece destaque é a de Jesse Plemons em determinado momento do filme. É durante seu discurso que temos uma das principais revelações da história, conectando sentimentos e informações apresentados anteriormente e ajudando a completar uma narrativa tão maluca quanto coerente. A forma como Plemons entrega o texto, combinada ao roteiro, faz desse momento o meu favorito do filme.
No fim das contas, Digger é uma grande crítica aos tempos atuais e aos figurões das indústrias que estão mais interessados em suas próprias contas bancárias do que nas pessoas ou no planeta. O filme mergulha no estereótipo desse tipo de indivíduo e cria situações que remetem a figuras conhecidas do mundo real. Tudo isso conversa diretamente com a atuação de Cruise, que constrói um personagem complexo e cheio de camadas, capaz de deixar até mesmo quem está diretamente envolvido com ele confuso sobre suas reais intenções.
Digger (Warner Bros. Pictures/Divulgação)
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Digger é um excelente filme, que, na minha visão, só peca pela maneira como vende sua própria história e pela confusão que provoca no público, especialmente antes de revelar completamente sua proposta. Existe um risco considerável de atrair espectadores que talvez não estejam preparados ou que simplesmente não querem esse tipo de narrativa, enquanto a demora para esclarecer sua estrutura pode afastar parte do público.
Fora isso, o filme me prendeu completamente. As atuações são belíssimas, o roteiro é um dos grandes destaques e a construção desse mundo pós-apocalíptico é tão convincente que consegue fascinar e assustar na mesma medida. Digger talvez seja um dos melhores filmes que assisti neste ano quando o assunto é roteiro, justamente por transformar uma história inicialmente caótica em uma experiência muito mais complexa do que seus trailers fazem parecer.







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