Crítica | Verity

2026 | 1 h 54 min | Policial – Drama – Mistério – Romance – Suspense
(Sony Pictures/Divulgação)
Verity, o mais novo filme baseado em uma obra de Colleen Hoover, apresenta uma história interessante, cercada por mistérios, manipulações e reviravoltas que, em alguns momentos, conseguem surpreender. Porém, pelo que pude absorver conversando com pessoas que leram o material original, a adaptação deixa de lado boa parte da construção da tensão e do peso de momentos cruciais, especialmente nos pontos de virada, ainda que seja bastante fiel aos acontecimentos do livro.
Antes de me aprofundar na análise, quero deixar claro que não li o livro e também não procurei conhecer a história antes de assistir ao filme. Embarquei completamente às cegas, disposto a aceitar a narrativa que a produção queria me apresentar. Por isso, boa parte da minha opinião parte justamente dessa experiência. Ao final, porém, vou destacar algumas observações que surgiram nas conversas com leitores da obra e que trouxeram perspectivas diferentes da minha.

(Sony Pictures/Divulgação)
Para começar, Verity é dirigido por Michael Showalter, também responsável por Uma Ideia de Você, filme que possui crítica aqui no site e que me agradou bastante pelo estilo de comédia romântica (gênero que, por sinal, costuma funcionar muito bem comigo). Aqui, porém, a proposta é completamente diferente. O suspense psicológico e a tensão são elementos fundamentais para a narrativa, e, como vocês já sabem, esse costuma ser um dos meus maiores problemas com filmes do gênero. Não gosto da sensação de tensão constante e sempre fico esperando o momento em que vou acabar passando vergonha durante uma sessão.
Curiosamente, isso passou longe de acontecer.
O problema é que o filme praticamente não consegue criar esse clima. A tensão é muito fraca, enquanto os poucos jump scares são extremamente óbvios e previsíveis. Tudo é tão telegrafado que a produção raramente consegue me colocar dentro da atmosfera de suspense que a história exige. E, se Verity não conseguiu despertar esse sentimento em mim, justamente alguém que costuma ser bastante afetado por esse tipo de situação, fica difícil imaginar que a experiência funcione para quem procura um suspense realmente envolvente.
Na história, acompanhamos Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora contratada para terminar os livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora extremamente famosa e querida pelo público que ficou impossibilitada de continuar seu trabalho. Para concluir a série, Lowen se muda para a casa de Verity e de seu marido, Jeremy Crawford (Josh Hartnett). A partir daí, situações estranhas e descobertas inesperadas fazem com que a relação entre os três se transforme completamente.
Com o passar do tempo, Lowen começa a entrar cada vez mais na mente de Verity. Ao mesmo tempo em que passa a desejar a vida da escritora, também desenvolve uma forte repulsa por ela. Essa jornada de descobertas que criam esse sentimento é o centro da narrativa e, nesse aspecto, ter Anne Hathaway no papel de Verity é um dos maiores acertos da produção.
Hathaway está excelente, como de costume, e consegue transformar Verity em uma presença magnética mesmo quando a personagem não está no centro da cena. A atriz entende perfeitamente a ambiguidade da personagem e consegue sustentar a dúvida sobre quem realmente é aquela mulher.
Já Dakota Johnson me incomodou bastante. Não sei por que ainda tinha a esperança de que, neste filme, ela apresentaria uma atuação mais expressiva, mas a falta de expressão já fica evidente na primeira cena. Inicialmente, relevei por conta da situação vivida pela personagem, mas na cena seguinte, um homem morre diante dela e seu rosto fica completamente coberto de sangue. E, mesmo diante daquela situação, a expressão permanece praticamente a mesma.
A partir daquele momento, desisti completamente de tentar me conectar com Lowen. Passei a acompanhar a personagem apenas como uma ferramenta para descobrir o caminho que a história seguiria, ignorando quase completamente seus sentimentos e reações.

(Sony Pictures/Divulgação)
Nesse mesmo aspecto, a presença de Josh Hartnett no filme também se tornou um tanto complicada para mim. Não pela atuação, que por sinal está muito boa, mas sim pela proximidade com o filme Armadilha, de M. Night Shyamalan. Simplesmente não conseguia olhar para Hartnett e não enxergar um psicopata dissimulado e manipulador. Suas expressões faciais, seus trejeitos e até algumas escolhas de interpretação me remetiam diretamente ao personagem de Armadilha.
Por mais que Verity tente construir uma afeição por Jeremy, eu mantive um pé atrás com o personagem durante praticamente toda a projeção. Talvez justamente por isso, o grande plot final não tenha me surpreendido tanto. Ainda assim, gostei da maneira como a história encerra sua trajetória.

(Sony Pictures/Divulgação)
A manipulação de Verity e a constante dúvida sobre o que é real ou não são justamente os elementos que mais me fizeram gostar do filme. Normalmente, quando uma história termina de maneira ambígua e deixa algumas respostas em aberto, costumo considerar a escolha preguiçosa ou covarde. Aqui, porém, senti o contrário.
A ambiguidade funciona porque a dúvida permanece na mente de Lowen, e consequentemente, na nossa. O filme não tenta entregar uma resposta definitiva sobre aquilo que realmente aconteceu, permitindo que diferentes interpretações coexistam. Isso faz com que o peso da história permaneça mesmo depois dos créditos e transforma o encerramento em um ponto interessante para discussão.
Mas é justamente aí que voltamos ao principal problema da produção: a direção não consegue explorar a tensão necessária para tornar esses momentos realmente impactantes. Se Michael Showalter tivesse utilizado uma abordagem mais forte de suspense e terror, o final poderia ser muito mais devastador para o público. A dúvida sobre o que é real, quem está dizendo a verdade e quem está manipulando quem teria um peso muito maior.
E isso acaba diminuindo o impacto do filme.

(Sony Pictures/Divulgação)
Depois da sessão, conversei com pessoas que leram o livro e todas me afirmaram que os principais acontecimentos e elementos da narrativa estão presentes na adaptação. Nesse sentido, Verity parece ser uma adaptação bastante fiel. O problema está justamente na maneira como esses acontecimentos são construídos na tela.
Segundo os leitores com quem conversei, o clima de mistério e suspense funciona muito melhor no livro. Os acontecimentos são mais impactantes, as consequências possuem maior peso e as personagens femininas são construídas de maneira muito mais complexa e definida na obra de Colleen Hoover. Sabendo disso, fiquei ainda mais decepcionado com algumas escolhas do filme.
Como já mencionei, Anne Hathaway está excelente, enquanto Dakota Johnson fica devendo. E não acredito que seja uma questão de falta de capacidade da atriz, mas principalmente da comparação com Hathaway e da maneira como o filme exige determinadas reações de Johnson que simplesmente não aparecem. Ao mesmo tempo, considerando o histórico da atriz em papéis mais contidos, talvez a direção também pudesse ter encontrado maneiras mais eficientes de extrair dela aquilo que a personagem precisava.
Isso me faz questionar como seria Verity nas mãos de uma direção capaz de explorar melhor o suspense, o terror e a tensão psicológica presentes na história. Também fico imaginando como uma diretora poderia abordar essas duas personagens femininas a partir de uma perspectiva diferente, especialmente considerando as experiências e visões de mundo muito particulares que movem Lowen e Verity. Talvez tivéssemos um filme ainda mais interessante.

(Sony Pictures/Divulgação)
Outro ponto que merece destaque é o timing do lançamento. A história de Verity possui algumas semelhanças muito claras com A Empregada. A diferença é que, para mim, o roteiro e as atuações funcionam melhor aqui. Porém, como o filme está chegando aos cinemas depois da adaptação de A Empregada, essa sensação é inevitável.
E existe um problema ainda maior: o plot central de Verity apresenta uma dinâmica semelhante àquela vista em A Empregada. Portanto, quem assistiu ao outro filme e não leu o livro de Colleen Hoover provavelmente perceberá o caminho do encerramento muito antes de ele acontecer.
Existe, porém, uma observação importante nessa discussão sobre quem estaria copiando quem: o livro Verity foi publicado antes de A Empregada. Portanto, a questão da ordem aqui diz respeito exclusivamente às adaptações cinematográficas, e não às obras literárias que deram origem a elas.

(Sony Pictures/Divulgação)
Dito isso, preciso concluir que, apesar dos problemas técnicos e das escolhas que me afastaram da experiência, Verity continua sendo um filme bastante interessante. A história é boa, e a maneira como o roteiro conduz o espectador até uma conclusão capaz de colocar em dúvida tudo o que foi apresentado funciona muito bem.
Todas as possibilidades permanecem abertas no final, e o debate sobre o que realmente aconteceu pode continuar indefinidamente. O mais interessante é que o filme não tenta induzir o público a considerar uma interpretação mais verdadeira do que a outra. Essa escolha, para mim, é um dos maiores méritos da narrativa.
No fim das contas, a falta de tensão, a pouca expressividade da protagonista e a associação inevitável de Josh Hartnett com seu personagem em Armadilha acabaram me afastando um pouco da história. Ainda assim, dois elementos foram suficientes para me manter interessado: a vontade de descobrir o que realmente estava acontecendo e, principalmente, a atuação de Anne Hathaway, que desde o início foi o principal motivo para eu querer assistir ao filme.
Verity poderia ter sido um suspense psicológico muito mais marcante, mas sua história e sua ambiguidade ainda conseguem sustentar uma experiência interessante, especialmente para quem gosta de sair do cinema com mais perguntas do que respostas.







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