Crítica | Klara e o Sol

2026 | 1 h 56 min | Drama – Ficção científica

O novo filme de Taika Waititi, Klara e o Sol tem provocado bastante polêmica ao redor do mundo. Críticos, especialistas e espectadores apontam a produção protagonizada por Jenna Ortega e Amy Adams como o pior trabalho da carreira do diretor. Mas será que o longa é realmente tão ruim assim? Ou será que a adaptação de uma obra do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Kazuo Ishiguro, simplesmente não encontrou o caminho certo para funcionar nas telonas?
Independentemente da resposta, precisamos começar contextualizando a história para compreender suas propostas e os caminhos escolhidos pela produção. Assim, ao final, poderemos chegar a uma conclusão sobre essas questões.
A trama é uma ficção científica que acompanha Klara (Jenna Ortega), uma "amiga artificial" que sonha em encontrar uma amiga e, assim, descobrir um propósito para sua existência. Tudo isso acontece em um mundo pós-Terceira Guerra Mundial, no qual a internet deixou de existir, os seres humanos podem passar por modificações genéticas para se tornarem versões aprimoradas de si mesmos e os chamados "amigos artificiais" ou "AA" são tratados como objetos descartáveis, quase como utensílios do cotidiano.
Logo no início do longa, somos apresentados a Klara e à sua devoção ao Sol. Por desconhecer o funcionamento do mundo ao seu redor, ela acredita que o astro é uma espécie de divindade responsável por alimentar e reger todas as coisas, afinal, como androide, sua existência depende da energia solar. Klara vive em uma loja ao lado de diversas outras versões de "AA", sendo ela própria um modelo antigo desta categoria. Até que, em determinado momento, conhecemos Josie (Mia Tharia), uma jovem que decide comprar Klara por enxergar nela algo diferente, uma característica que normalmente não encontra nos demais amigos artificiais.
Após a compra, Klara passa a viver em um casarão afastado, ao lado de Josie, de sua mãe, Chrissie (Amy Adams), e da governanta Melania (Rachel House). Como esperado, as duas inicialmente demonstram resistência à presença da androide na casa, mas, com o passar do tempo, começam a reconhecer seu valor e mudam de perspectiva.
A partir daí, o filme preenche o bingo dos clichês de uma personagem extremamente ingênua que começa a descobrir o mundo. O grande problema, entretanto, está na falta de sutileza com que Waititi conduz esses momentos e apresenta sua narrativa. Cada etapa dessa jornada parece ser praticamente despejada na tela, seja por meio de diálogos longos e excessivamente expositivos ou por passagens aceleradas, que condensam acontecimentos importantes apenas para avançar rapidamente ao próximo ponto da história.
(Sony Pictures/Divulgação)
Embora não tenha lido a obra original de Kazuo Ishiguro, a impressão que fica é a de que a história abraça diversos conceitos filosóficos e precisa dedicar tempo a cada um deles, permitindo que sejam debatidos pelas próprias personagens e pelo leitor. São temas que exigem reflexão, desenvolvimento e espaço para que suas diferentes camadas sejam exploradas.
O filme, porém, não apresenta essa mesma característica. Durante boa parte da exibição, tive a sensação de estar prestes a acompanhar um questionamento interessante ou importante, mas que nunca chega a ser devidamente desenvolvido. Diversas questões são levantadas, mas praticamente nenhuma encontra resposta ou conclusão satisfatória. Assim que determinado assunto é apresentado, a narrativa simplesmente parte para o próximo, sem retomar o debate anterior. Com isso, o interesse vai diminuindo conforme a história avança.
Um dos exemplos mais claros está justamente na devoção de Klara ao Sol. Trata-se de uma ligação extremamente forte, que rege boa parte da narrativa e praticamente define sua personalidade. É por meio dessa crença quase divina que a androide encontra esperança, mantém seu otimismo e interpreta o mundo ao seu redor. Entretanto, por mais importante que seja para a construção da personagem, essa relação não recebe o aprofundamento que merecia.
O debate sobre escravidão, preconceito e a maneira como os androides são tratados também nunca ganha o devido destaque, permanecendo em segundo plano e sendo explorado de maneira superficial e artificial.
A questão das modificações genéticas em seres humanos para torná-los "elevados" segue o mesmo caminho e não chega a lugar algum. Até mesmo o desfecho da história, que não será detalhado aqui para preservar a única surpresa mais significativa do filme (embora seja possível antecipá-la antes dos momentos finais), acaba sofrendo com essa falta de desenvolvimento.

(Sony Pictures/Divulgação)
Taika Waititi demonstra dificuldade em compreender o tempo necessário para contemplar as convicções e os questionamentos propostos pela história. Além disso, a quantidade de piadas inseridas em momentos que pediam uma abordagem mais séria é bastante incômoda e prejudica a imersão do espectador.
Um momento que ilustra bem esse problema é a festa organizada por Chrissie para inserir sua filha no grupo dos "elevados". Toda a situação é extremamente opressora e constrangedora. Os convidados demonstram uma postura grosseira e de superioridade em relação às pessoas consideradas "normais", simplesmente por não possuírem as mesmas modificações genéticas, além da maneira como tratam os amigos artificiais, especialmente Klara, por ser um "AA" e ser de um modelo antigo.
A sequência estabelece um paralelo direto com a forma como as classes mais privilegiadas enxergam aqueles que não pertencem ao seu círculo social. É uma situação desconfortável, absurda e que poderia render uma discussão bastante interessante. Entretanto, mesmo diante de um cenário tão opressor, Waititi insiste em transformar boa parte da sequência em piada, fazendo os "elevados" agirem de maneira caricata e exageradamente surreal. O resultado é uma tentativa de extrair humor de uma situação que claramente exigia outra abordagem.
(Sony Pictures/Divulgação)
Se existe um aspecto que realmente funciona no longa, é a escalação de Jenna Ortega como protagonista. Mesmo limitada pelas características emocionais de uma androide, a atriz consegue transmitir os sentimentos necessários para criar uma conexão com o público. Seu comportamento extremamente positivo, extravagante e ingênuo, acompanhado de uma devoção genuína, faz com que Klara seja uma personagem cativante. Infelizmente, o restante da narrativa não consegue aproveitar todo o potencial dessa interpretação.
Amy Adams, por outro lado, parece atuar no piloto automático durante boa parte da produção. Existem apenas dois vislumbres do que a atriz poderia entregar: a primeira delas, durante a sequência da cachoeira, ao lado de Ortega; e a segunda, no desfecho, contracenando com Mia Tharia. Fora esses momentos, sua atuação permanece nivelada por baixo, sem conseguir despertar no espectador emoções que deveriam ser fundamentais para compreender sua personagem.
Em vez de sentirmos sua dor, suas angústias ou até mesmo desenvolvermos alguma empatia por suas escolhas, acabamos diante de uma personagem que desperta principalmente indiferença e irritação. Uma oportunidade desperdiçada, considerando a importância de Chrissie para os conflitos emocionais da história.
Embora não vá entrar em detalhes sobre os acontecimentos, preciso comentar o final do filme, que deixa diversas questões em aberto e não oferece uma conclusão clara para a narrativa. Aparentemente, a intenção era construir um desfecho ambíguo, permitindo interpretações nas quais tudo termina bem ou tudo termina mal ou uma mistura desses dois pontos. Entretanto, a maneira como essa proposta é executada faz com que eu considere perfeitamente plausível que toda a sequência final seja ilusória e não tenha acontecido da forma apresentada.
Isso acontece porque alguns elementos surgem de lugares inesperados ou contradizem situações que o próprio filme havia estabelecido anteriormente como impossíveis. Dessa forma, a ambiguidade não funciona como deveria e acaba enfraquecendo o impacto emocional do encerramento.

(Sony Pictures/Divulgação)
Os acontecimentos finais seguem fielmente o livro? Não sei. Só posso dizer que, caso a obra de Ishiguro também apresente essa mesma ambiguidade, espero que consiga conduzi-la com melhor desequilíbrio do que o visto no filme, pois se for equivalente o resultado seria igualmente anticlimático para uma história tão bonita e repleta de potencial.
Mas, afinal, Klara e o Sol é realmente o pior filme da carreira de Taika Waititi? É um completo desperdício e um desrespeito ao material original? Não.
Entretanto, fica evidente que a história não encontrou a combinação ideal com o estilo do diretor. A produção deixa diversos conceitos importantes pelo caminho e não consegue desenvolver satisfatoriamente boa parte das questões que apresenta.
Ainda assim, a fotografia, alguns diálogos e, principalmente, a atuação de Jenna Ortega ajudam a compensar parcialmente essas limitações. São elementos que demonstram o potencial existente na história, mesmo quando a adaptação não consegue explorá-lo por completo.
Não posso afirmar que o livro de Kazuo Ishiguro desenvolva todos esses elementos de maneira superior, já que não tive contato com a obra original. Porém, a sensação que fica é a de que a história provavelmente encontra nas páginas um espaço mais adequado para trabalhar suas reflexões, seus questionamentos filosóficos e sua carga emocional.
No fim, Klara e o Sol é uma ficção científica com ideias interessantes, uma protagonista cativante e uma história capaz de provocar reflexões importantes. O problema é que, entre a pressa em avançar pela narrativa e o excesso de humor em momentos inadequados, Taika Waititi acaba deixando escapar justamente aquilo que poderia tornar o filme uma experiência verdadeiramente marcante.







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