Crítica | As Regras do Amor na Cidade Grande

2026 | 1 h 58 min | Comédia – Drama – Romance

À primeira vista, As Regras do Amor na Cidade Grande parece querer nos contar uma história sobre relacionamentos, desejos e aquela busca quase universal por encontrar alguém para dividir a vida. Mas basta alguns minutos de filme para perceber que a proposta é bem maior, e muito mais interessante.
Dirigido por Lee Eon-hee e baseado no romance de Park Sang-young, o filme acompanha Jae-hee (Kim Go-eun) e Heung-soo (Noh Sang-hyun), dois jovens que se encontram de maneira bastante inusitada e, apesar de começarem a relação com o pé esquerdo, acabam construindo uma amizade que atravessa anos, amores, dores, mudanças e fases completamente diferentes de suas vidas e sinceramente, é justamente essa construção que faz o filme funcionar tão bem.
No começo, é preciso se deixar levar, porque o início pode causar uma certa confusão. O filme apresenta informações, situações e personagens sem necessariamente explicar tudo imediatamente, algo bastante característico de algumas produções coreanas, onde primeiro somos colocados dentro daquela realidade e depois as peças começam a se encaixar.
À medida que conhecemos Jae-hee e Heung-soo, entendemos melhor quem eles são, o que carregam e principalmente, por que aquela amizade se torna tão importante.
As Regras do Amor na Cidade Grande (SOFA DGTL/Divulgação)
(SOFA DGTL/Divulgação)
Jae-hee é apresentada como uma mulher cheia de vida! Ela quer experimentar, amar, beber, se divertir e viver seus desejos sem pedir licença. No começo, parece não se importar nem um pouco com o que os outros pensam, mas ninguém vive completamente imune ao julgamento alheio.
Aos poucos, o bullying, os comentários, os preconceitos e a crueldade com que a sociedade costuma tratar quem não se encaixa, fazem com que Jae-hee comece a questionar até mesmo aquilo que antes parecia ser tão natural para ela. O que acaba refletindo também nos relacionamentos que ela estabelece, incluindo uma relação abusiva que culmina em violência.
Enquanto Jae-hee começa sua história aparentemente sem medo de ser quem é e vai descobrindo como o mundo pode ser cruel com quem se expõe, Heung-soo passa boa parte da vida fazendo justamente o contrário: escondendo uma parte essencial de si mesmo para conseguir se encaixar.
E é aí que o filme encontra uma de suas maiores forças.
A sexualidade de Heung-soo não é tratada como um recurso narrativo para transformar o personagem em símbolo. Ele é, antes de tudo, uma pessoa.
É mostrado como ele ama, sente medo, sente desejo, erra, decepciona, protege, se contradiz e, em alguns momentos, consegue até nos deixar com raiva de suas escolhas, mas o filme nunca exige que concordemos com ele para que possamos compreendê-lo.
Para quem já precisou esconder uma parte de si para se proteger, existe uma familiaridade dolorosa na maneira como Heung-soo vive sua sexualidade e o filme consegue abordar essa experiência com naturalidade, sem transformar cada momento em um discurso explicativo.
A representação LGBTQIAPN+ está ali, mas o personagem não existe apenas para representar uma comunidade. Ele existe para viver.
As Regras do Amor na Cidade Grande (SOFA DGTL/Divulgação)
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A relação entre os dois começa de uma maneira bastante improvável.
Depois de um primeiro encontro nada convencional, Heung-soo desenvolve uma certa antipatia por Jae-hee. Mas, quando ela percebe que colegas de sala estão desconfiando de sua sexualidade, decide protegê-lo da maneira mais Jae-hee possível: inventando que os dois tiveram um caso. A mentira resolve temporariamente o problema dele, mas cria outro para ela. Jae-hee passa a ser alvo de comentários e, posteriormente, de uma humilhação pública envolvendo um nude atribuído falsamente a ela.
Depois de ouvir os comentários dos colegas, ela simplesmente levanta a camisa diante da sala e prova que a fotografia não era dela. É uma cena desconfortável, engraçada e triste ao mesmo tempo, e revela algo sobre Jae-hee: ela pode ser impulsiva, exagerada e completamente imprevisível, mas não aceita facilmente que outras pessoas determinem quem ela é.
É depois disso que Heung-soo finalmente aceita o convite que ela havia feito anteriormente e os dois saem para beber. A partir daí, uma amizade começa e o filme tem o mérito de não tentar apressá-la.
Nós vemos os dois convivendo, dividindo um apartamento, bebendo juntos, brigando, se apoiando, conhecendo os relacionamentos um do outro e simplesmente vivendo. É justamente essa convivência que nos permite criar uma conexão verdadeira com os personagens.
Heung-soo se torna aquele amigo que está sempre presente para Jae-hee. Até que, em determinado momento, ele não está, e não porque deixou de se importar.
Durante um evento da comunidade LGBTQIAPN+, para o qual foi levado pelo namorado sob o pretexto de assistir a um concerto de guitarra, Heung-soo acaba no meio de um ataque preconceituoso. Ele tenta proteger o namorado e acaba sendo agredido.
Enquanto isso, Jae-hee precisa enfrentar uma situação difícil sozinha e o amigo não vai ao seu encontro, o que a faz se sentir ainda pior.
Os dois brigam e é justamente aqui que o filme acerta novamente, porque a amizade não é apresentada como algo perfeito. Eles ficam magoados. Eles se decepcionam. Eles podem até interpretar errado aquilo que aconteceu, mas quando descobrem o que realmente aconteceu, conseguem olhar para o outro, compreender e se acolher.
Não existe uma grande declaração sobre amizade. Eles simplesmente se reconciliam de forma natural, é fofo, é engraçadinho, e é um retrato do cotidiano, porque é assim que muitas amizades verdadeiras funcionam. Você pode passar anos construindo uma relação com alguém e, em algum momento, essa pessoa pode falhar com você. Isso não necessariamente apaga tudo o que veio antes.
As Regras do Amor na Cidade Grande (SOFA DGTL/Divulgação)
(SOFA DGTL/Divulgação)
Um dos momentos mais bonitos do filme acontece justamente quando Heung-soo começa a romper com aquilo que passou tanto tempo escondendo.
Existe uma cena especialmente delicada envolvendo sua mãe.
Depois de acreditar que algo grave havia acontecido com ela, Heung-soo encontra, entre seus pertences, o ingresso de Me Chame Pelo Seu Nome, filme que ela havia assistido. Ela não faz um discurso. Não diz que sabe. Não diz que aceita. Não temos uma confirmação explícita sobre o que ela pensa. Ele apenas encontra o ingresso e sorri e esse pequeno gesto diz muito.
Mais tarde, na delegacia, depois de Jae-Hee ser atacada pelo ex namorado tóxico, Heung-soo assume publicamente que é gay. É como se o filme apresentasse dois momentos diferentes de enfrentamento: primeiro, a possibilidade de ser aceito dentro da própria família; depois, a coragem de assumir sua identidade diante da sociedade.
E até nessa cena o filme encontra espaço para o humor, com dois homens bêbados aplaudindo o discurso dele. É engraçado, mas também simbólico. Heung-soo finalmente não está mais tentando desaparecer.
Enquanto Heung-soo percorre seu caminho de aceitação, Jae-hee finalmente encontra uma pessoa que parece gostar justamente de quem ela é.

(SOFA DGTL/Divulgação)
O relacionamento nasce quase sem esforço.
Ela não estava tentando impressioná-lo, não estava interpretando uma versão mais agradável de si mesma. Ele simplesmente a observa e se interessa por aquela mulher real.
Depois de tantos momentos em que Jae-hee é julgada, sexualizada, diminuída ou transformada em assunto, encontrar alguém que simplesmente a enxergue parece quase revolucionário.
O casamento dos dois é um dos momentos mais bonitos do filme.
Heung-soo participa da celebração, apresentando uma música para a amiga e em uma pequena brincadeira, acaba até pegando o buquê.
É engraçado, carinhoso e ao mesmo tempo, melancólico.
Porque aquele casamento também significa o fim de uma fase. Jae-hee vai embora e o apartamento que durante tanto tempo foi a casa dos dois fica vazio.
O filme poderia terminar simplesmente com a separação dos amigos e o início da nova vida de Jae-hee, mas ele escolhe algo muito mais bonito.
Heung-soo permanece sozinho no apartamento diante do computador, ele recupera uma frase que ouviu de alguém que amou: “se o amor não é uma obsessão, talvez nunca tenha sido amor de verdade”. E então começa a escrever.
Para quem acompanhou sua trajetória, esse momento tem um significado especial. Somos apresentados em uma cena do filme relação do Heung-soo com a literatura.
Agora, finalmente, ele parece pronto para transformar suas experiências em palavras. Talvez esteja escrevendo sobre si, sobre Jae-hee, sobre os dois ou sobre a vida. O filme não precisa responder! O importante é que, depois de passar tanto tempo tentando esconder sua própria história, Heung-soo finalmente parece disposto a contá-la.

(SOFA DGTL/Divulgação)
As Regras do Amor na Cidade Grande é um filme sobre amor, mas não necessariamente sobre o amor que esperamos encontrar quando ouvimos essa palavra.
É sobre desejo, paixão, família, identidade, liberdade e amadurecimento, mas, acima de tudo, é sobre amizade.
Sobre aquela pessoa que aparece por acaso, entra na sua vida sem pedir licença e, quando você percebe, já está dividindo uma parte enorme da sua história com ela. É um filme que consegue transformar o cotidiano em algo cinematográfico. Não precisa de grandes discursos o tempo inteiro. Não precisa transformar cada experiência LGBTQIAPN+ em uma lição. Não precisa criar personagens perfeitos. Ele simplesmente mostra pessoas vivendo e talvez seja justamente por isso que seja tão fácil se envolver.
Você pode ficar irritado com Heung-soo, se identificar com Jae-hee, compreender os dois e reconhecer situações que já viu acontecer com alguém próximo ou até consigo mesmo. Porque, no fim, eles não parecem personagens distantes, parecem pessoas e talvez essa seja a maior qualidade do filme.
As Regras do Amor na Cidade Grande não é uma história sobre encontrar alguém para amar. É uma história sobre encontrar alguém com quem você possa ser você mesmo enquanto tenta descobrir quem é, e nesse sentido, o filme fala sobre o maior amor de todos: aquele que não precisa ser romântico para durar uma vida inteira.
A amizade.







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