Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes
- Gustavo Pestana

- há 52 minutos
- 3 min de leitura
2026 | 2 h 16 min | Drama – Romance
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, estrelada por Margot Robbie no papel de Cathy e Jacob Elordi como Heathcliff, é um filme complexo de analisar. A produção se apresenta de uma forma, desperta uma reação diferente da pretendida no público geral e ainda cria uma terceira camada de expectativa entre os fãs da obra original. O resultado é um longa que flutua entre essas três percepções, tornando sua classificação um desafio. A proposta aqui é explorar essas vertentes com clareza, mesmo sem a pretensão de assumir um olhar acadêmico sobre o material.
Desde o início, o marketing apostou em um discurso provocativo. O slogan “Perca o controle”, somado a entrevistas do elenco e rumores nos bastidores, construiu a imagem de um filme intensamente sexual, repleto de cenas íntimas e de uma carga visceral capaz de elevar o nível dramático das atuações. No entanto, essa promessa não se concretiza da forma como foi vendida.
Quando um longa se posiciona dessa maneira, o público tende a não esperar um romance dramático clássico, com diálogos bem construídos e desenvolvimento emocional cuidadoso. A expectativa se aproxima mais de algo na linha de Cinquenta Tons de Cinza: tensão sexual constante, cenas explícitas e uma narrativa mínima para conectar os momentos mais intensos. Ainda assim, essa também não é a experiência que o filme oferece.
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Por outro lado, leitores do romance de Emily Brontë encaram essa abordagem com cautela. A expectativa gira em torno de uma adaptação que preserve a essência da obra, utilizando eventuais cenas íntimas apenas como picos narrativos, sem comprometer a estrutura, o tom e a força do texto original. Essa fidelidade, porém, também não é plenamente atendida.
Na prática, o filme incorpora elementos de todas essas perspectivas, mas sem se entregar completamente a nenhuma delas. As cenas íntimas existem, porém não são numerosas nem explícitas. A sensualidade prometida se manifesta, sobretudo, em momentos de tensão sexual sugerida, muitas vezes expressa por imagens simbólicas e escolhas visuais que estão presentes no trailer. Quando o contato físico ocorre, aparece muito mais romântico e sugestivamente intenso e quase todo condensado em uma sequência que reúne diferentes momentos da relação entre Robbie e Elordi, sem se tornar o eixo central da narrativa.
O longa não depende dessas cenas para conquistar o público ou contar sua história. A condução aposta fortemente na atmosfera, no drama romântico e no peso emocional da relação entre os protagonistas. Ainda assim, algumas decisões narrativas levantam questionamentos, especialmente no que diz respeito à fidelidade ao material original.
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Mudanças pontuais ao longo da trama (com destaque para o desfecho) alteram o desenrolar da história. Essa percepção se baseia em pesquisas e comentários de leitores da obra, já que o livro não faz parte do meu repertório pessoal.
Apesar dessas ressalvas, O Morro dos Ventos Uivantes está longe de ser um filme ruim. Com expectativas moderadas e interesse maior pelas atuações do que pela trama em si, a minha experiência no cinema foi positiva, ainda que acompanhada de algumas dúvidas. A narrativa segue uma linha relativamente linear, entrega performances sólidas e bons momentos, sustentados pela forte química entre Margot Robbie e Jacob Elordi.
O clima que envolve o filme transmite uma sensação constante de perigo, desejo, tensão emocional e sexual, que explode em momentos específicos ao longo da projeção. Tecnicamente, o filme impressiona, fotografia elegante, direção segura e trilha sonora envolvente elevam o resultado final e reforçam a identidade estética da obra.
(Warner Bros. Pictures/Divulgação)
Ainda assim, fica a sensação de que alguns elementos narrativos poderiam ter sido melhor desenvolvidos. Em determinados trechos, a história parece acelerar demais, deixando lacunas que comprometem a compreensão de certas motivações e relações. Não está claro se essas ausências já existem no romance ou se são fruto de escolhas do roteiro, mas, independentemente da origem, esses momentos não comprometem a experiência como um todo.
No fim das contas, O Morro dos Ventos Uivantes não se posiciona como um grande marco do cinema contemporâneo nem como o ponto mais alto da carreira de seus protagonistas. Trata-se de um drama romântico competente, tecnicamente refinado, capaz de emocionar alguns espectadores e passar despercebido por outros. A grande questão é que para ele funcionar plenamente é preciso o clima certo e que o público esteja alinhado com esse tipo de narrativa, já que qualquer desalinhamento pode transformar a sessão em uma experiência frustrante.
Como adendo final, vale lembrar que o filme é dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, responsável por Bela Vingança e Saltburn. Curiosamente, esses dois trabalhos dialogam muito mais com a expectativa criada em torno deste projeto do que o próprio longa entrega, então para quem deseja explorar melhor a filmografia da diretora, ambos são ótimas recomendações (embora recomendo ir com calma em Saltburn).































































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