Crítica | O Beijo da Mulher-Aranha
- Fagner Ferreira Seara

- 14 de jan.
- 2 min de leitura
2026 | 2 h 9 min | Drama – Musical
(Paris Filmes/Divulgação)
Em tempos de polarização extrema dos ideais políticos, revisitar o passado é mais do que um exercício de memória: é uma necessidade histórica. Conhecer as marcas deixadas pela violência institucional e pela censura ajuda a compreender não apenas o que fomos, mas o que ainda corremos o risco de repetir. O cinema brasileiro e latino-americano recente tem reforçado essa urgência, como mostram Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, ambos premiados e reconhecidos internacionalmente por sua qualidade, reafirmando que ditaduras devem ser sempre temidas. O caso recente da Venezuela é mais um lembrete real de como regimes autoritários pouco se preocupam em governar para o povo.
Foi nesse contexto que, em 1985, Hector Babenco lançou O Beijo da Mulher-Aranha, um filme cru, denso e profundamente humano. Ambientado quase inteiramente dentro de uma cela, o longa acompanha dois prisioneiros políticos: Molina (William Hurt), preso por ser um homem gay, e Valentín (Raul Julia), encarcerado por discordar dos ideais da ditadura. O encontro dessas duas figuras, à primeira vista opostas, constrói um elo improvável, onde diferenças ideológicas e pessoais se chocam, mas também revelam pontos de contato inesperados.
Babenco transforma o confinamento em ferramenta dramática. A fantasia narrada por Molina (histórias de filmes, melodramas e divas) funciona não como fuga vazia, mas como resistência íntima. É no afeto, na escuta e no desejo que o filme encontra sua força política, recusando a separação entre corpo, emoção e ideologia.
(Paris Filmes/Divulgação)
A nova versão dirigida por Bill Condon propõe uma atualização ousada ao transformar essa fantasia em musical. Com Diego Luna, Tonatiuh e Jennifer Lopez no elenco principal, o remake aposta no espetáculo como linguagem, ampliando o universo imaginário da obra original. O resultado é visualmente ambicioso, mas narrativamente irregular.
Jennifer Lopez rouba a cena nos números musicais, exibindo presença e domínio cênico. No entanto, quem realmente sustenta o filme é Tonatiuh. Sua atuação é sensível e precisa, conseguindo transitar entre fantasia e “realidade” com emoção genuína, criando empatia, paixão e um vínculo convincente com o companheiro de cela. Há verdade em sua performance, algo que mantém o interesse mesmo quando o roteiro enfraquece.
O principal problema do remake está na diluição de seu eixo central. A trama do presídio, que deveria carregar o peso político e emocional da narrativa, acaba prejudicada pelo excesso de números musicais, que frequentemente desviam o foco em vez de aprofundá-lo. Em vários momentos, as canções parecem dispensáveis, quebrando o ritmo e tornando a experiência cansativa.
(Paris Filmes/Divulgação)
Diferente do filme de 1985, que usava a fantasia como ferramenta de sobrevivência e denúncia silenciosa, a versão de Condon se inclina mais ao escapismo estético do que ao confronto político. A brutalidade do cárcere e o impacto simbólico da repressão são suavizados, o que enfraquece o discurso da obra.
O Beijo da Mulher-Aranha permanece uma história essencial, mas o remake evidencia como a troca da densidade pelo espetáculo pode esvaziar uma obra profundamente política. Bonito de se ver, o novo filme raramente incomoda, e esse talvez seja seu maior problema.















































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