Crítica | Marty Supreme
- Fagner Ferreira Seara

- 22 de jan.
- 3 min de leitura
2026 | 2 h 29 min | Drama – Esportes
(Diamond Films/Divulgação)
Transformar um esporte de nicho como o tênis de mesa em combustível dramático para o cinema está longe de ser uma tarefa simples. Para que a proposta funcione, é necessário construir urgência, interesse e relevância em torno de um universo que, à primeira vista, pode parecer distante do grande público. Marty Supreme compreende esse desafio e o converte em linguagem cinematográfica, usando o esporte não como fim, mas como pano de fundo para discutir ambição, ego e a busca incessante por validação. No centro dessa engrenagem está Timothée Chalamet, que reforça seu status como um dos atores mais disputados e instigantes de Hollywood atual.
Na trama, acompanhamos Marty Mauser, um mesatenista movido por um narcisismo corrosivo que, ao disputar o campeonato mundial de tênis de mesa no Japão, mostra-se disposto a ultrapassar qualquer limite. Não há espaço para ponderações morais ou empatia: Marty avança sem olhar para trás, enquanto conflitos pessoais se acumulam e escapam gradualmente de seu controle, ampliando a tensão dramática à medida que o filme avança.
Josh Safdie constrói um protagonista frenético e transfere essa pulsação diretamente para a estrutura do longa. Marty age por impulso, explora laços familiares, manipula amizades, rouba quando conveniente e chega a negligenciar a própria paternidade em nome de seus objetivos. O roteiro acerta em cheio ao criar um personagem profundamente contraditório: ao mesmo tempo em que o espectador rejeita suas atitudes, surge o desejo quase involuntário de vê-lo triunfar. Essa ambiguidade moral sustenta a força dramática do filme e mantém o público em constante conflito emocional.
(Diamond Films/Divulgação)
Grande parte desse impacto vem da atuação magnética de Timothée Chalamet, possivelmente a mais ousada de sua carreira desde Me Chame Pelo Seu Nome. Sem receio de julgamentos, o ator abraça o lado mais canalha de Marty e entrega um personagem repulsivo, carismático e hipnotizante. O ritmo intenso (por vezes caótico) da narrativa se mantém coeso graças à sua presença em cena, fazendo com que inconsistências temporais se tornem irrelevantes diante do envolvimento gerado.
Ao seu lado, Odessa A’zion acrescenta densidade emocional e acompanha com precisão a proposta do diretor, construindo uma personagem que cresce em importância conforme os eventos se intensificam. Sua performance acaba ofuscando Gwyneth Paltrow, que surge de forma mais ornamental dentro de uma narrativa claramente orbitada em torno de Marty.
Ao transformar um esporte pouco midiático em um catalisador narrativo capaz de revelar o melhor e o pior de seu protagonista, Marty Supreme se afirma como um dos filmes mais vibrantes e energéticos do ano. A montagem é precisa, a progressão temporal contribui para o aumento da tensão, e as sequências mais impactantes evidenciam a maturidade de Josh Safdie em seu primeiro grande trabalho solo, agora distante da parceria com o irmão.
No fim das contas, Marty Supreme vai muito além de um drama esportivo. O filme se estabelece como um estudo de personagem meticulosamente construído, que desafia o espectador a conviver com contradições morais. Marty Mauser é alguém que provoca amor e repulsa na mesma medida, e talvez essa seja sua maior força. As escolhas éticas permanecem subjetivas, mas o impacto do material é direto e contundente, pavimentando um caminho claro para uma possível indicação, ou até vitória de Timothée Chalamet no Oscar de Melhor Ator (espero que não!).



































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