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Crítica | Morra, Amor

  • Foto do escritor: Fagner Ferreira Seara
    Fagner Ferreira Seara
  • 15 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

2025 | 1 h 59 min | Drama – Suspense

(Paris Filmes/Divulgação) 


A depressão pós-parto é um tema que nem sempre é abordado com a atenção devida que merece ser. Essa condição de tristeza profunda afeta diversas mães de primeira viagem nas primeiras semanas após dar luz. 

 

Morra, Amor reafirma o interesse de Lynne Ramsay por personagens que vivem à beira de rupturas internas, mas aqui a diretora adota um rigor ainda mais íntimo e perturbador, acompanhando a degradação emocional de uma mulher no pós-parto sem recorrer a explicações didáticas ou atalhos dramáticos. Ramsay constrói uma narrativa que se sustenta quase exclusivamente na experiência sensorial: a câmera se aproxima demais, o som invade, a montagem fragmenta qualquer sensação de equilíbrio. Tudo é pensado para colocar o espectador dentro de uma mente em colapso, e o desconforto não é acidente, é método. 

 

Jennifer Lawrence entrega uma das melhores atuações de sua carreira (se não for a melhor), guiada menos pela fala e mais pela fisicalidade. Há um esgotamento visível, uma tensão permanente nos gestos, no olhar, na postura. É uma atuação desprotegida, que rejeita glamour e se concentra em expressar um tipo de sofrimento que costuma ser silenciado. 

(Paris Filmes/Divulgação) 


Robert Pattinson, em papel secundário, funciona como contraponto silencioso: é parte apoio, parte presença que reforça a atmosfera de instabilidade, sempre parecendo incapaz de acessar o mundo interior da protagonista. 

 

O filme trata a maternidade sem a moldura idealizada que frequentemente envolve o tema no audiovisual. Ramsay se recusa a suavizar o impacto do puerpério e expõe a desconexão entre a imagem social da “mãe plena” e a realidade emocional de quem enfrenta a exaustão, a culpa e a sensação de dissolução da própria identidade deixando em cheque sua psicose. 

 

A diretora não oferece alívio nem busca construir uma curva de superação; seu interesse está na observação crua do desamparo e das falhas de suporte ao redor dessa mulher que já não sabe o que é, de fato, lucidez em sua vida. 

(Paris Filmes/Divulgação) 


Embora visualmente forte e dramaticamente intenso, Morra, Amor é um filme que exige disposição do público. A ausência de linearidade, a repetição de sensações, o ritmo mais lento e a filmografia um tanto escura, podem afastar quem espera clareza narrativa ou até mesmo conexão visual com o enredo. 

 

No entanto, essa resistência faz parte da proposta: o longa opera mais como um estado emocional do que como uma história tradicional. A estética está a serviço da vivência, e não da explicação. 

 

No conjunto, Ramsay entrega uma obra dura e honesta, sustentada por uma das atuações mais poderosas da carreira de Lawrence. Morra, Amor não oferece respostas nem conforto, mas que se destaca justamente por enfrentar um tema delicado com coragem rara e profundidade emocional. Uma obra que permanece reverberando muito depois do fim da sessão, porém pode não agradar tantas pessoas por criar uma ligação maior com casais. 

Nota

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