Crítica | Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes
- Beatriz Lopes
- 15 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
2023 | 2 h 37 min | Ação – Aventura – Drama
[ ATENÇÃO ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS ]

(Paris Filmes/Divulgação)
O novo filme do universo de “Jogos Vorazes” chega polêmico para os fãs da saga, tanto os que conhecem o livro ou não.
Como nos outros quatro filmes, a história é baseada na obra de Suzanne Collins, que também é produtora executiva deste longa. Mas afinal, o que poderia tornar essa narrativa diferente?
O filme é dividido em três atos que contam a trajetória do futuro Presidente Snow, interpretado por Tom Blyth, onde no primeiro momento, somos atravessados pelos Dias Escuros, a grande guerra civil entre os distritos e a Capital, trazendo muitas perdas e destruição para os dois lados.
Passando muito rapidamente pela sua infância, e chegando finalmente aonde a história realmente se inicia, com Coriolanus aos seus 18 anos tendo que lidar com os resquícios da recente guerra sendo pobre e órfão.

(Paris Filmes/Divulgação)
Porém, Snow consegue maquiar sua difícil situação perfeitamente para os outros estudantes da Academia da Capital, tão cruéis e ambiciosos quanto ele, prontos para dar o bote em qualquer um nesse ninho de cobras.
Na Academia também conhecemos o criador dos Jogos Vorazes, Casca Heighbottom (Peter Dinklage numa performance épica), assim como a Chefe dos Idealizadores, a doutora Volumnia Gaul (a grandiosa Viola Davis).
Num ritmo frenético de informações, o primeiro ato vai da infância à fase jovem de Snow, adentra o dia a dia dos moradores da Capital e suas diversas rixas internas, e ainda nos leva a conhecer Lucy Gray Baird (Rachel Zegler) e sua banda no Distrito 12, o Bando, passando também por cenas de ação picotadas.
São muitas nuances com muitos elementos para processar, o que deixa às vezes alguns furos no roteiro, como na cena em que Lucy, uma garota de distrito, começa a cantar na TV aberta da Capital sem que ninguém a impeça, em meio a um ataque pelos rebeldes (em grande parte, também dos distritos).

(Paris Filmes/Divulgação)
Entretanto, podemos até relevar alguns desses furos a partir do ponto que Rachel e seu belo canto conseguem praticamente roubar o protagonismo para si, com sua personagem simpática (em alguns momentos até demais) e encantadora, mesmo que às vezes falte um polimento dramático para dar o tom adequado do contexto mórbido.
Mas para isso, podemos contar com Tom Blyth, entregando perfeitamente o olhar frio e falso do jovem Snow, que Donald Sutherland apresentou nos longas anteriores da franquia.
Então, Snow vê a possibilidade de mudar de vida sendo o mentor de Lucy na 10ª edição dos Jogos Vorazes, não com a intenção de instruir a jovem para que ela fique viva, mas sim para torná-la uma peça interessante o suficiente para fazer com que as pessoas assistam ao massacre/espetáculo, uma vez que a Capital precisa manter a chama do medo acesa com o recente fim da guerra.
Com isso, nesse balanço que deixa o telespectador na dúvida em alguns momentos, Snow quase consegue nos convencer de que é capaz de alguma bondade em sua relação com Lucy Gray e seus esforços para mantê-la viva, mas a todo o momento somos acordados com um balde de água gelada que nos lembra quem é o verdadeiro vilão, que é capaz de trair até os poucos e únicos aliados (pessoalmente, é um alívio ver que o filme não é de forma alguma uma tentativa de justificar ou dar uma redenção ao personagem).

(Paris Filmes/Divulgação)
Falando em vilania, a parceria de Snow e da doutora Volumnia é a cereja do bolo envenenado que confeita a trama, onde podemos ver o exemplo da maldade e perversão do futuro presidente.
A dupla faz uma excelente harmonia maléfica, e Viola Davis dispensa comentários com essa vilã, que mesmo com uma aparição reduzida nas telas, atrai facilmente os holofotes a cada segundo em cena. Talento que se fala, né?
“A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” nos apresenta os Jogos Vorazes em seu desenvolvimento, com tecnologias primárias e sem glamour, mas que talvez seja ainda mais cruel do que as arenas que conhecemos com Katniss (Jeniffer Lawrence).
A objetificação e comercialização da vida das pessoas dos distritos empobrecidos são ainda mais difíceis de engolir em uma arena tão simples sem tantas pirotecnias para nos distrair. Os elementos cênicos e a fotografia realmente nos levam a uma outra época de Panem e dos jogos em si.

(Paris Filmes/Divulgação)
Contudo, mesmo com a velocidade atropelada dos acontecimentos e a falta de explicação de muitos deles, o final da trama cabe muito bem nesse quebra-cabeça, contando com mistério, traição e veneno.
Aqui também temos um breve plot com a música “The Hanging Three” (“A Árvore-Forca”), criada por Lucy Gray e cantada também por Katniss no filme “A Esperança: Parte 1”, virando um hino para revolução.
O filme fala sobre a crueldade humana, sobre os aperfeiçoamentos de um sistema sujo e opressor que vende entretenimento a partir do sofrimento e da morte de crianças pobres e miseráveis, tratando sobre a hipocrisia da ideia de direitos pela sobrevivência ser válida para uns e não para outros.
Retomar a uma saga tão aclamada depois de tanto tempo realmente é uma aposta perigosa, e claro que tem suas falhas, como a falta de desenvolvimento de personagens importantes que faz falta para uma coesão geral.
Mas ainda assim, o filme mantém a qualidade da franquia e não desonra o grande peso do nome. Pode não ser o melhor filme da história, mas certamente vai emocionar os verdadeiros e mais ferrenhos fãs da série.

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