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Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia

  • Foto do escritor: Gustavo Pestana
    Gustavo Pestana
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

2026 | 2 h 25 min | Ação – Aventura – Ficção científica

(Sony Pictures/Divulgação)


O Amigão da Vizinhança está de volta aos cinemas. Homem-Aranha: Um Novo Dia marca o início de uma nova fase do herói no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), apresentando um Peter Parker mais maduro após os acontecimentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa.


A trama acompanha um Peter completamente sozinho, obrigado a conviver com o peso de ver seus amigos seguirem a vida sem qualquer lembrança de sua existência. Ao mesmo tempo, ele ainda enfrenta o luto pela Tia May e uma série de conflitos internos sobre sua identidade como Peter Parker e Homem-Aranha. Talvez pela primeira vez nesta versão interpretada por Tom Holland, vemos o personagem realmente próximo da essência do personagem dos quadrinhos: alguém dividido entre o desejo de viver uma vida comum e a responsabilidade de carregar o maior dos fardos.


Diferentemente dos três filmes anteriores, Homem-Aranha: Um Novo Dia também representa uma mudança importante nos bastidores. A troca de direção foi, na minha visão, uma decisão fundamental para reforçar essa nova etapa do personagem. Além de acompanhar a evolução de Peter, o longa inaugura o que tudo indica ser uma nova trilogia.

(Sony Pictures/Divulgação)


Jon Watts deixa o comando para Destin Daniel Cretton, diretor de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, e a mudança não poderia ter sido mais acertada. Cretton entrega um trabalho impecável, especialmente nas cenas de ação, um dos seus maiores pontos fortes. Afinal, Shang-Chi já havia apresentado algumas das melhores sequências de combate de todo o MCU, e essa experiência fica evidente aqui.


O diretor também imprime uma identidade renovada ao Homem-Aranha. A câmera acompanha os movimentos de forma muito mais dinâmica, criando uma sensação de proximidade que coloca o espectador na pele do herói sem recorrer ao recurso da primeira pessoa. Essa abordagem torna as sequências de ação mais imersivas e faz com que cada balanço entre os prédios transmita velocidade, leveza e adrenalina.


Outro detalhe interessante é o cuidado de Destin Daniel Cretton com o legado do personagem. O diretor revelou que conversou constantemente com a equipe de dublês e, ao lado de Tom Holland, passou um longo período acompanhando fóruns de fãs para entender quais elementos eram mais desejados pelo público. O resultado aparece em diversos momentos espalhados pelo filme.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Sony Pictures/Divulgação)

(Sony Pictures/Divulgação)


A produção resgata características muito marcantes das versões interpretadas por Tobey Maguire e Andrew Garfield. A movimentação pelas ruas de Nova York utilizando as teias, alguns enquadramentos, o peso emocional de determinadas cenas, detalhes do uniforme e até situações enfrentadas pelo protagonista remetem aos filmes anteriores. São referências discretas, utilizadas com equilíbrio, mas suficientes para despertar aquela sensação de finalmente estarmos vendo o Homem-Aranha que os fãs sempre quiseram acompanhar no MCU.


Além das homenagens aos filmes anteriores, a produção bebe bastante da fonte dos jogos da Insomniac Games. As ocorrências policiais espalhadas pela cidade, o ritmo dos combates, a coreografia das lutas, alguns equipamentos utilizados durante a ação e até o sistema de notificações de crimes remetem diretamente aos games do PlayStation. São inspirações claras, mas incorporadas de forma orgânica, enriquecendo a experiência sem parecer mera reprodução.


Felizmente, o longa não vive apenas de referências. O roteiro é bastante sólido e entende exatamente quem é seu protagonista.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Sony Pictures/Divulgação)

(Sony Pictures/Divulgação)


Pela primeira vez nesta franquia, Peter Parker resolve os próprios problemas sem depender da presença constante de outra pessoa. Isso não significa que outros personagens deixem de participar ou ofereçam ajuda em momentos específicos. A diferença está justamente no equilíbrio: existe colaboração quando a história pede, mas nunca dependência. O filme devolve ao Homem-Aranha a autonomia que muitos fãs sentiam falta, permitindo que suas conquistas sejam resultado das próprias escolhas e capacidades.


No entanto, o aspecto mais interessante do roteiro está na forma como aborda temas como depressão, solidão e isolamento emocional.


Sem entrar em spoilers, a narrativa acompanha duas jornadas paralelas: a de Peter Parker e a da misteriosa personagem vivida por Sadie Sink. Peter sofre por não conseguir mais viver plenamente como Peter Parker e acaba suprimindo essa parte de si atrás da máscara do Homem-Aranha. Permanecer quase o tempo todo como o herói tem um preço, e o filme trabalha muito bem as consequências dessa escolha e nem sempre de forma direta, o que para mim torna o elemento ainda mais interessante.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Sony Pictures/Divulgação)

(Sony Pictures/Divulgação)


Já a personagem de Sadie Sink percorre um caminho semelhante, embora com uma visão e motivos completamente diferentes. Em determinado momento, essas duas trajetórias se encontram e revelam, de maneira bastante sensível, como ambos enfrentam seus próprios conflitos internos. Essa construção funciona como a verdadeira espinha dorsal do longa e representa uma das decisões mais inteligentes do roteiro.


Ao optar por uma história mais íntima e centrada nos personagens, o filme evita recorrer a uma ameaça gigantesca que exija a participação de diversos heróis apenas para aumentar a escala dos acontecimentos. Em vez disso, cria um conflito profundamente pessoal, emocionalmente relevante e suficientemente importante para sustentar toda a narrativa.


Apesar de todos esses acertos, Homem-Aranha: Um Novo Dia não é perfeito.


Os principais problemas aparecem na reta final. Não me lembro exatamente onde ouvi esta frase, mas ela resume muito bem minha percepção sobre o filme: "Ele é excelente... até lembrar que faz parte do Universo Marvel."


E é exatamente essa sensação que tive.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Sony Pictures/Divulgação)

(Sony Pictures/Divulgação)


Durante boa parte da história, tudo gira em torno de Peter Parker, seus dilemas, suas relações e sua evolução como personagem. Entretanto, quando o filme entra no último terço, a narrativa começa a abrir espaço para elementos claramente voltados à construção do futuro do MCU. Algumas situações passam a existir mais para preparar os próximos capítulos da franquia do que para servir à história que está sendo contada.


O resultado é um ritmo mais acelerado e, em alguns momentos, um pouco cansativo. Nada que comprometa a qualidade do longa, mas fica evidente a diferença entre aquilo que pertence naturalmente à trama e o que foi inserido para conectar futuras produções da Marvel Studios. Particularmente, essa necessidade constante de preparar o próximo filme já não me agrada tanto quanto antes.


Ainda assim, Homem-Aranha: Um Novo Dia está facilmente entre os melhores filmes do herói. A produção entrega um Peter Parker mais humano, mais próximo das HQs e muito mais fiel à essência criada nos quadrinhos. Depois de tantos anos acompanhando diferentes versões do personagem, finalmente temos um Homem-Aranha que equilibra ação, emoção e responsabilidade da forma que muitos fãs sempre imaginaram.

Nota

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