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Crítica | No Limite da Justiça

Foto do escritor: Gustavo Pestana
Gustavo Pestana
há 18 horas
5 min de leitura

2026 | 1 h 47 min | Ação – Policial – Suspense

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


Um dos filmes mais recentes a levantar questionamentos e críticas pela forma como aborda sua história é No Limite da Justiça, escrito por Sascha Penn, dirigido por Elegance Bratton e protagonizado por Yahya Abdul-Mateen II e Mark Wahlberg.


Mas qual é a grande polêmica envolvendo o filme? A principal questão está na maneira como a produção representa os acontecimentos reais que serviram de inspiração para a trama, especialmente o racismo e, principalmente, o personagem interpretado por Mark Wahlberg. Todos esses pontos são realmente problemáticos? Sim e não. Não consigo concordar totalmente com algumas das críticas que tenho visto, mas consigo entender o contexto dos questionamentos. Para chegar a essa discussão, porém, precisamos voltar um pouco no tempo e conhecer os acontecimentos reais que inspiraram a história.

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


O principal pilar da narrativa é o brutal assassinato de Vernon Dahmer (Giancarlo Esposito), um respeitado líder negro e ativista dos direitos civis no Mississippi, em 1966, mesmo período em que a trama se passa.


Dahmer ajudava cidadãos negros a pagar as taxas eleitorais necessárias para que pudessem votar. Sua atuação na luta pelos direitos civis provocou fortes atritos com grupos supremacistas brancos, levando a Ku Klux Klan a atacar sua residência com bombas de fabricação caseira e disparos de arma de fogo. O atentado acabou tirando a vida de Dahmer, que sofreu graves queimaduras enquanto tentava proteger sua família. 


Outro elemento baseado em uma figura real é Gregory Scarpa (Mark Wahlberg), um perigoso membro da Máfia de Nova York conhecido pelo apelido de "O Ceifador". Secretamente, Scarpa também era um dos informantes mais valiosos do FBI na época e participava de missões que os agentes tradicionais da organização tinham dificuldade para realizar. Entre elas estava justamente a obtenção de informações sobre integrantes da KKK envolvidos no ataque contra Dahmer.


Também existe uma ponta de verdade na história envolvendo um agente negro do FBI responsável por investigar o assassinato no Mississippi. A existência desse agente e alguns relatos sobre sua experiência teriam servido de inspiração para o personagem Wayne Strider (Yahya Abdul-Mateen II), embora não esteja claro até que ponto esses acontecimentos são verdadeiros ou apenas histórias que foram ganhando força ao longo do tempo.

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


Partindo desses elementos reais, No Limite da Justiça mistura fatos históricos com algumas liberdades criativas que aumentam consideravelmente a importância de Greg Scarpa na narrativa. O personagem passa a ter uma relação muito próxima com Wayne Strider, chegando a praticamente ensiná-lo como reagir a violência e sobre como se impor diante de um mundo que constantemente o trata como inferior por causa da cor de sua pele, mesmo sendo um agente do FBI.


É justamente sob essa ótica que consigo entender o incômodo de parte do público, mas não necessariamente enxergar esses elementos da mesma maneira. Vejo a importância de Scarpa para a narrativa como relevante, porém o personagem é apresentado claramente como um maníaco agressivo e tão problemático quanto qualquer integrante da KKK. O roteiro não o protege ou transforma em uma figura positiva, muito menos em um exemplo a ser seguido.


Na minha leitura, Scarpa funciona como uma espécie de meio-termo entre os supremacistas brancos e Wayne Strider. Ele apresenta ao agente do FBI uma alternativa sobre como enfrentar aquele ambiente e mostra, de maneira bastante brutal, os custos de tentar lidar em pé de igualdade com pessoas dispostas a ultrapassar qualquer limite.


Isso fica ainda mais evidente quando Wayne passa a adotar alguns dos métodos de Greg. Existe um desconforto claro no personagem, mas a situação escala de tal maneira que a possibilidade de resolver o caso pelos caminhos tradicionais da lei parece cada vez mais distante. Wayne acaba agindo daquela forma por necessidade e pelas circunstâncias que o cercam. Assim que o caso é solucionado, porém, ele se distancia de Greg e retorna à sua postura convencional como agente correto do FBI, quase como se ele se rendesse aos métodos de Greg temporariamente para poder trazer um pouco de justiça, mesmo que exista um custo para isso.

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


Quando entramos na questão do racismo, sou mais inclinado a concordar com algumas das críticas. Embora tenha gostado da maneira como o preconceito é representado no filme, acredito que a produção poderia ter explorado melhor o racismo estrutural presente na sociedade daquele período, em vez de concentrar boa parte dessa discussão nos supremacistas e em suas ações extremistas.


Seria interessante mostrar, ainda que de maneira sutil, como o preconceito fazia parte do cotidiano dos personagens e estava presente em diferentes níveis da sociedade americana. Ainda assim, a forma escolhida pelo filme não chega a me incomodar. Independentemente da cor da pele, qualquer pessoa minimamente funcional consegue compreender a dor e o impacto de assistir à maneira como aqueles personagens são tratados.

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


Falando especificamente do filme, gosto bastante da dinâmica entre Yahya Abdul-Mateen II e Mark Wahlberg. Os dois desenvolvem uma química muito interessante para a narrativa. Em determinados momentos, parece que existe uma amizade genuína entre eles, até que alguma situação faz o preconceito ou a violência de Greg vir à tona e transforma completamente o ambiente.


Essa mudança constante deixa claro que Greg é um mal necessário para aquele momento da história. Não porque suas habilidades sejam indispensáveis ou porque ele seja o único capaz de solucionar o problema, mas porque sua presença é determinada pelos próprios superiores do FBI, que enxergam nele uma ferramenta capaz de fazer aquilo que seus agentes convencionais não conseguiriam.


Como o racismo ocupa uma posição central na narrativa, Yahya Abdul-Mateen II encontra bastante espaço para explorar diferentes nuances de seu personagem. O ator entrega momentos muito fortes, alternando sentimentos em questão de segundos e transmitindo ao público toda a dor, o medo e a sensação de inferioridade enfrentados pelos personagens negros naquele recorte da história dos Estados Unidos.


Em muitos momentos, Wayne acaba funcionando como uma representação física de sentimentos que ultrapassam o próprio personagem, carregando consigo o peso de uma parcela inteira da população negra que enfrentava diariamente uma sociedade marcada pelo racismo e pela segregação.

No Limite da Justiça (Diamond Films/Divulgação)

(Diamond Films/Divulgação)


Como falei no início deste texto, não consigo concordar totalmente com todas as reclamações feitas pelo público, embora consiga compreender de onde elas vêm. Também é importante lembrar que No Limite da Justiça não é um documentário, mas uma obra cinematográfica baseada em acontecimentos reais. Algumas mudanças são inevitáveis para transformar fatos históricos em uma narrativa com ritmo, conflito e personagens capazes de sustentar uma história de longa-metragem.


É claro que, por se tratar de acontecimentos reais, existe espaço para discutir até que ponto essas alterações deveriam considerar com maior atenção a perspectiva das pessoas diretamente envolvidas nos eventos. Ainda assim, acredito que a proposta do filme passa justamente por transformar uma história complexa em uma obra acessível a um público amplo. E, nesse aspecto, a maneira como os acontecimentos e personagens são apresentados consegue transmitir sua principal mensagem.


Racismo não é aceitável e nunca foi uma forma válida de segregar pessoas.


Mesmo que, para transmitir essa mensagem, No Limite da Justiça acabe aliviando um pouco a barra de alguém tão problemático, preconceituoso e violento quanto Greg Scarpa.

Nota

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