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Crítica | Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor

Foto do escritor: Gustavo Pestana
Gustavo Pestana
há 2 dias
6 min de leitura

2026 |1 h 50 min | Comédia – Drama – Fantasia – Romance

  • Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Mais uma continuação de um filme de décadas atrás está chegando aos cinemas. Dessa vez, Sandra Bullock e Nicole Kidman revivem suas personagens, Sally Owens e Gillian Owens, em Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Practical Magic 2), continuação direta de Da Magia à Sedução (Practical Magic), lançado em 1998.


Sem sombra de dúvidas, este é um filme que busca surfar na onda de continuações nostálgicas que abraçam os fãs do longa original, apostando no apego emocional e em situações já conhecidas para trazer algo positivo ao novo projeto. Porém, mesmo sendo uma produção rasa e pouco original, a história tenta se distanciar um pouco do filme de 1998 e, pelo menos em sua premissa, apresenta uma justificativa para a própria existência.


Para contextualizar essa afirmação, precisarei trazer alguns spoilers do filme de 1998. Então, se você não quiser receber spoilers de uma produção com quase 30 anos, recomendo pular o próximo bloco.

  • Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


No primeiro filme, acompanhamos a história de duas jovens irmãs bruxas, Sally Owens (Sandra Bullock) e Gillian Owens (Nicole Kidman), criadas por suas tias, também bruxas, Jet (Dianne Wiest) e Franny (Stockard Channing), após a mãe das garotas tirar a própria vida. Porém, o grande ponto da trama não está apenas nessa perda, mas na maldição que a família carrega há gerações: todo homem por quem uma das mulheres Owens se apaixona acaba morrendo, condenando-as a uma vida marcada pela solidão e pelo sofrimento.


A história acompanha as irmãs da juventude até a vida adulta. Enquanto Sally tenta viver isolada e longe dos perigos de se apaixonar, evitando um destino trágico como o da própria mãe, que tirou a vida após a morte de seu amado, Gillian encara a vida de maneira mais leve, aproveitando cada relacionamento sem criar vínculos. Até que, em determinado momento, ambas se apaixonam e seus respectivos maridos acabam mortos: um deixa como legado o amor e duas filhas, enquanto o outro se revela apenas um maluco psicopata.


Diante da situação desesperadora e confusa, na qual as irmãs acabam matando esse homem desprezível, elas tentam realizar um feitiço para trazê-lo de volta à vida para não terem problemas relacionados ao fato delas terem o matado. O ritual, porém, dá errado e cria uma entidade que passa a assombrá-las durante boa parte do filme. No fim, tudo se resolve: as irmãs ficam bem, um novo amor surge para Sally e, aparentemente, a maldição chega ao fim, dando início a uma nova jornada, agora livre da solidão.

  • Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


O filme de 1998 cheira a uma produção do final dos anos 90. A obra aproveita o auge de Sandra Bullock e Nicole Kidman, duas das maiores e mais rentáveis estrelas de Hollywood na época, para colocá-las no centro de uma comédia romântica fantástica (no sentido de fantasia, não necessariamente de qualidade). O longa mistura realismo mágico, bruxaria leve e romances complicados, elementos que estavam em alta naquele período.


A história é simples e reúne muitos gêneros diferentes, tendo momentos emocionais que rapidamente dão lugar à comédia e até flertam com o terror, com direito a possessão e exorcismo no terceiro ato. Vale ressaltar que, embora essas sequências não transformem o filme em uma obra de terror, é preciso considerar que o público que procurava uma comédia romântica encontrava elementos que destoavam bastante da proposta inicial e para essa perspectiva, o filme tem bastante elemento do terror.


Talvez essa mistura ajude a explicar por que o filme não foi um grande sucesso de bilheteria na época, tornando-se uma espécie de clássico cult anos depois, impulsionado pelas exibições na televisão e pelo mercado de home vídeo.

Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


E justamente por causa desse sucesso na TV, 28 anos depois, a história retorna aos cinemas, e com ela, traz uma espécie de encerramento para essa trajetória.


Em Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor, continuamos acompanhando Sally e Gillian, mas agora as filhas de Sally que fomos apresentadas no primeiro filme já são adultas. Antonia (Maisie Williams) e Kylie (Joey King) vivem suas próprias vidas sem saber que são bruxas, já que essa parte de suas memórias foi apagada e mantida em segredo desde a morte do segundo marido de Sally (é isso mesmo, a maldição continua existindo).


Essa foi uma escolha de Sally para tentar proteger as filhas de uma vida marcada pelo medo de amar e pela possibilidade de terminar sozinhas, mesmo que ela as tenha criado ensinando que se apaixonar era ruim e que provavelmente as pessoas com quais elas se apaixonassem iria morrer de forma misteriosa, assim como aconteceu com tantas mulheres da família.


Porém, ainda estamos falando de uma comédia romântica. Portanto, era inevitável que uma delas se apaixonasse, então, dessa vez, é Kylie quem cumpre essa função. A jovem mantém um relacionamento escondido da mãe com Gideon (Xolo Maridueña), que, em determinado momento, sofre um acidente e fica entre a vida e a morte. O acontecimento faz com que todos os segredos da família venham à tona e leva Kylie a questionar tudo o que acreditava saber sobre sua própria história.


A jovem entra em conflito com a mãe e a tia e parte em busca de uma maneira de quebrar a maldição para salvar Gideon. É aí que começa uma longa jornada (que passa rápido demais), que faz Kylie enfrentar perigos que ela desconhece, enquanto Sally e Gillian precisam embarcar em uma busca de sua filha e sobrinha e protegê-la das consequências de suas próprias escolhas.

Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Como mencionei no início, o filme não é original, e também não parece interessado em ser. A produção reúne uma coleção de clichês que remetem tanto ao filme de 1998 quanto às produções da época e, principalmente, aos filmes atuais que revisitam propriedades nostálgicas. Portanto, não há exatamente uma grande novidade esperando pelo público.


Ainda assim, a premissa é interessante. O roteiro resgata um elemento apresentado no filme anterior que nunca havia sido completamente resolvido e o transporta para o presente com o objetivo de finalmente encerrá-lo. A partir dessa ideia, o longa consegue falar sobre amor e família de uma maneira bastante bonita.


Embora continue sendo uma comédia romântica, Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor não é necessariamente sobre a relação entre um casal. O verdadeiro centro da narrativa está no amor entre mãe e filha, na relação entre duas irmãs e, principalmente, no amor de família. Claro, existem interesses românticos e uma história de amor movimentando a trama, mas eles funcionam muito mais como catalisadores para discutir outras formas de afeto.

Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Essa abordagem faz ainda mais sentido quando observamos a proposta do primeiro filme. Em 1998, a relação entre Sally e Gillian já era o pilar da narrativa. Agora, a continuação amplia essa discussão e apresenta outras formas de amor, mostrando como esses vínculos podem ser fortes o suficiente para enfrentar (e até quebrar) uma maldição antiga e poderosa.


Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor também flerta com diferentes subgêneros, mas não consegue fazer isso com a mesma eficiência do original. O terror, por exemplo, é tão raso e superficial que fica difícil classificá-lo realmente como terror, embora seja evidente que a intenção estava presente.


O roteiro tenta recuperar elementos capazes de remeter ao filme de 1998 e, em alguns momentos, consegue. Porém, na maior parte do tempo, a narrativa é acelerada demais e acaba tornando acontecimentos importantes e impactantes muito mais passageiros do que deveriam ser. Descobertas que poderiam ter um peso significativo são apresentadas e, na cena seguinte, já parecem ter perdido grande parte da força que deveriam carregar.


As escolhas dos personagens também são bastante questionáveis, enquanto determinadas situações parecem convenientes demais para que possamos afirmar que o roteiro realmente sabia o que fazer com a história. A impressão é de que a equipe tinha alguns momentos-chave definidos e foi construindo justificativas e situações ao redor deles para conectar os acontecimentos, sem desenvolver suficientemente essas ideias para que funcionassem de maneira orgânica dentro do conjunto.

Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor (Warner Bros. Pictures/Divulgação)

(Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Mesmo assim, o filme consegue agradar. Afinal, ele não se propõe a ser algo completamente diferente. Estamos falando de uma franquia cujo primeiro filme encontrou seu público principalmente anos depois, graças à televisão e ao home video. Portanto, a continuação precisava manter justamente essa leveza e acessibilidade que marcaram tantas produções do gênero no final dos anos 90 e início dos anos 2000, sendo esse um daqueles que filmes que você assiste em casa quando passa na TV.


Por isso, de maneira geral, o filme funciona dentro daquilo que se propõe a fazer. Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor busca agradar uma parcela específica do público, os fãs do filmes original e, ao mesmo tempo, se possível, conquistar uma nova geração de espectadores.


Não existe uma grande pretensão de transformar a produção em um fenômeno ou iniciar uma nova franquia capaz de gerar inúmeros derivados no futuro.


Ainda assim, como acontece com tantas produções recentes, existe uma pequena porta entreaberta para que essa história continue caso o estúdio considere interessante explorar novamente esse universo.

Nota

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