Crítica | Coração Partido

2026 | 2 h 14 min | Drama – Romance

(Paris Filmes/Divulgação)
Coração Partido é aquele tipo de filme que termina e você fica pensando: “Tá... eu gostei? Não gostei? Eu já vi isso antes?”
E essa foi exatamente a sensação que eu tive.
Eu entrei nesse filme sabendo muito pouco. Não conhecia a história, não tinha lido o livro e, inclusive, fui pesquisar depois porque queria entender melhor algumas coisas que o filme simplesmente não explica.
E já aviso: eu gosto desse gênero.
Eu gosto de enemies to lovers, gosto daquele romance com bad boy, gosto de uma história meio “garoto problemático e garota com personalidade forte”, gosto até dessa coisa meio mafiosa envolvendo família poderosa.
Então não foi o clichê que me fez não me apegar ao filme.
O problema é que Coração Partido parece ter uma história muito maior do que o tempo que o longa teve para contar, e isso fica muito evidente conforme a trama avança.

(Paris Filmes/Divulgação)
O filme começa com Polina (Veronika Zhuravleva) se mudando para uma nova casa e consequentemente, para uma nova escola.
Rapidamente entendemos a sua dinâmica familiar: ela mora com a mãe e o padrasto, Andrei (Pavel Kuzmin), que desde o começo demonstra ser um homem extremamente controlador.
Sua relação com Andrei se apresenta de formas cada vez mais pesadas no decorrer da trama. No começo é cobrança, controle, aquelas pequenas atitudes que fazem você pensar “esse homem definitivamente é péssimo”, depois a coisa escala, e escala bastante. A relação com a mãe parece ser de acolhimento e cumplicidade, porém em cenas futuras isso não se mantém como nos foi apresentado.

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Na escola, Polina não é tão bem recebida. De cara ela já começa a sofrer bullying. Aqui eu preciso abrir um parênteses para dizer que o filme insiste muito nisso, mais do que o necessário, na minha opinião, para demonstrar a gravidade da situação que a personagem está enfrentando.
O filme tem várias cenas na escola (e arredores) de provocações, humilhação, perseguições e agressão, que infelizmente me peguei pensando em certo momento: “Ok, eu já entendi que essa personagem sofre muito. Podemos desenvolver outra coisa agora?”
Se algumas dessas cenas fossem trocadas pelo desenvolvimento de relações mais relevantes, eu acredito que o filme teria ganhado bastante com isso.
Passa a ideia de que precisavam evidenciar demais esse bullying, para a chegada do “herói” que a salva, ser mais impactante.

(Paris Filmes/Divulgação)
Dito isso, conhecemos Bars (Daniel Vegas), que nos entrega o pacote clássico do “garoto misterioso, perigoso, bonito e aparentemente problemático.”
No começo, eu achei a construção deles um pouco forçada.
Eles são vizinhos, ela o vê da sacada sem camisa, o filma, ele percebe. Eles se encontram cara a cara, eles brigam, em parte porque ela encontra um o gatinho numa caixa ao lado de uma lixeira, mas deixa ele onde encontrou pra comprar algo para alimentá-lo, Bars também o encontra e o carrega consigo, ela vê e vai atrás para confrontá-lo porque acha que ele vai fazer alguma maldade com o animal. Eles têm uma discussão, onde trocam acusações e insinuações um sobre o outro, o que gera um clima hostil com tensão sexual palpável e até um pouco estranha a lá Edward e Bella no início, que passa aquela sensação de que as emoções escalam rápido demais para cena, e você fica meio perdido.
Porém, mais a frete, conforme os dois vão se “trombando” e convivendo, o romance começa a funcionar um pouco melhor.
Principalmente quando o filme deixa de tentar fazer Bars parecer o “garoto perigoso” e começa a mostrar o cuidado que ele tem com ela. Até mesmo quando a fachada do garoto perigoso é usada para protegê-la.

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Uma cena que traduziu bem o sentimento de proteção e cuidado que ele começa a sentir é quando cuida do machucado dela após Polina ser vítima de agressão, devido ao bullying das meninas populares. Ele entra em cena, a salva confrontando as tais meninas tentando fazê-las pagar na mesma moeda. Polina o impede, dizendo que não quer que continue, pois não fará igual a elas. Então ele a leva dali, para frente a uma farmácia, compra um remédio e começa a tratar seus ferimentos. Quando ela sente dor, ele sopra o machucado para tentar aliviar.
É clichê? Com certeza, mas é um clichê que funciona, e eu acho que o filme funciona muito melhor nesses detalhes.

(Paris Filmes/Divulgação)
Ainda sobre detalhes, tem uma coisa que o filme desenvolve muito bem: a amizade feminina. O que para mim, foi uma das surpresas mais positivas.
A amizade entre Polina e Dilara (Alya Mayer) é, provavelmente, a relação mais natural e crível de todo o filme. Os conselhos, fofocas, proteger uma à outra. Dilara se manteve com ela mesmo quando a outra menina as deixou para se juntar ao grupinho do bullying, enfim, é uma relação de amigas bem construída.
A cena delas dançando “Dynamite”, do BTS, com o menino passando de bicicleta com a caixa de som, mostrou que essas duas personagens não foram colocadas juntas no roteiro só para explicar alguma coisa uma para a outra. Elas parecem amigas de verdade!
Essas cenas são espontâneas, divertidas e têm uma leveza que falta em várias outras partes. E isso é muito importante! Porque mostrou que o filme sabe construir relações quando quer.
O que para mim, foi até um pouco frustrante, porque: “Vocês conseguem fazer isso! Então por que não fizeram com o resto?”
Nessa mesma vibe, temos uma das minhas cenas favoritas de Polina e Bars: ao som de “Butterfly”, do BTS, eles estão se beijando e a câmera vai girando ao redor dos dois enquanto os cenários e as roupas vão mudando.
É como se o beijo continuasse enquanto o relacionamento atravessa vários momentos e a música combina muito com a sensação da cena. Quando estão juntos, eles parecem estar livres de todos os problemas que existem ao redor.
Aqui eu já preciso confessar que existe uma certa parcialidade da minha parte, por gostar muito do grupo coreano, mas mesmo tirando meu lado ARMY da equação, achei a cena muito bonita. É uma cena romântica, dinâmica, muito envolvente e curiosamente, é outro momento em que eu me peguei pensando: “Eu queria ver mais disso nesse filme.”

(Paris Filmes/Divulgação)
Acredito que o filme tem problemas demais acontecendo ao mesmo tempo e isso atrapalha o avanço natural da história.
Além do romance, temos o padrasto abusivo, o passado misterioso do Bars, o relacionamento conturbado com o pai e a morte da mãe dele, tem o bullying contra Polina, as corridas ilegais de moto, a dívida de Bars com seu ex patrão, os mercenários contratados para cobrar Bars, tem os filhos do Andrei e ambos têm um passado com o Bars, tem abandono parental, conflito familiar, ou seja, é praticamente uma novela inteira acontecendo dentro de um filme de menos de 3 horas.
E o problema não é ter tudo isso, o problema é não conseguir tempo suficiente para desenvolver tudo isso.
O passado do Bars, por exemplo, tem potencial. A história dele com o pai é interessante. O conflito entre eles se estabelece quando a mãe morre, e ele ainda criança, não teve a presença do pai naquele momento, o que o marcou para o resto da vida.
Os flashbacks aparecem aos poucos durante o filme, e eu gostei dessa construção. Porque você fica especulando o que de fato aconteceu, tenta construir a cena que o traumatizou para vida, e quando finalmente aparece ele dizendo que a mãe tirou a própria vida com o terno do pai, e mostra o Bars criança chorando, com a sombra de sua mãe pendurada, você recebe o impacto e entende melhor a ferida daquele personagem. Uma cena profunda, onde você deveria se conectar com a dor dele, mas o filme precisa correr novamente para encaixar outro conflito, o que te desconecta de forma brusca daquela emoção.

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Somos elevados à história das corridas e das dívidas, e confesso que essa foi uma das partes em que eu mais fiquei perdida.
Bars trabalha numa mecânica, tem um problema com o patrão, se demite, antes de sair, risca o carro do cara com uma chave inglesa, aparecem cobradores, ele consegue pagar, os caras retornam lá na frente, com o filme já avançado em conflitos cobrando novamente, mas agora por contra própria, como se o Bars tivesse de pagar o serviço deles. Aí você pensa: “Eles já não deveriam ter sido pagos pelo ex patrão, porque estão aparecendo aqui de novo?’
Pareceu mais um conflito criado como gancho para introduzir a próxima questão a ser resolvida por Bars, porque logo em seguida temos a cena em que ele tenta pedir dinheiro ao pai, que o questiona, o colocando sempre na posição de garoto problema e forçando uma confiança e abertura que eles não construíram. Bars confronta o pai e vai embora, então, como ainda precisa de dinheiro para se livrar dos mercenários, entra em mais uma corrida.
Eu entendo a função narrativa disso, mas ficou muito artificial. Parecia menos um acontecimento natural e mais: “Precisamos de mais um problema para levar esse personagem até o próximo ponto do roteiro.”

(Paris Filmes/Divulgação)
Os filhos do Andrei são outra parte que, para mim, ficou muito mal construída. O filme quer que você entenda que existe uma história muito maior entre Bars, Sasha (Alexandra Tikhonova), Lime (Ivan Trushin), Andrei e Polina, porém em vários momentos, eu simplesmente pensava: “Mas por que essa pessoa está com raiva dessa menina?”
Principalmente Lime. Entendemos que existe um ressentimento enorme por causa do pai, mas por que exatamente a Polina virou alvo? Isso não é bem desenvolvido, devemos “pressupor” ser sobre ela receber uma atenção que ele e sua irmã não recebem, e sabemos que não é bem a verdade, pelo menos não de forma saudável.
Então temos a cena em que Sasha vai atrás do pai, é rejeitada, Polina a salva de um possível atropelamento, elas brevemente trocam suas frustrações e decidem sair juntas para se distrair, Lime chega, rola uma hostilidade que deixa Polina e Sasha confusas, ele disfarça e cada um segue seu caminho.
Mais para frente vem a cena em que Polina procura Sasha como amiga, buscando ajuda para a dívida do Brars (outro ponto estranho, pedir dinheiro para quem mal conhece mesmo que numa situação “desesperadora”). Sentadas no café, Polina pede ajuda financeira a Sasha para salvar seu namorado, Lime chega e temos dele uma explicação recheada de sarcasmo e segundas intenções para Sasha e Polina de quem é filho de quem, quem é ex de quem, quem é enteada de quem. Esse diálogo passou uma intenção do roteiro em desenvolver uma questão: “precisamos explicar essa relação porque não tivemos tempo de fazer vocês entenderem naturalmente e queremos ter certeza de que entenderam”.
Isso me incomodou bastante, porque são personagens que poderiam ser muito interessantes, mas acabam parecendo só peças necessárias para uma história maior que o filme está tentando preparar, exatamente como o pai os trata, o filme os tratou também.

(Paris Filmes/Divulgação)
Outra decepção é a relação da Polina com a mãe.
O filme constrói uma relação bonita entre elas. A mãe parece ser um porto seguro, porque existe acolhimento, existe cumplicidade, ela acoberta suas saídas e o namorado, do seu marido que considera um pouco rígido, mas não nota que ele é um cara abusivo de fato!
Até que chega o momento em que Polina realmente precisa que a mãe fique do lado dela e ela não fica. O que faz Polina romper com a relação e ir embora de casa.
Eu consigo entender a decisão! O que me incomodou, foi a velocidade com que essa ruptura acontece. Eu queria ter sentido mais aquele momento, porque não era para ser simplesmente: “Vou morar com a minha avó” é “Eu perdi a minha mãe como lugar seguro” e isso poderia ter sido muito mais forte na tela.

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No fim, apesar de rápido, o romance de Polina e Bars, que é a narrativa principal, é uma das coisas que melhor funcionam, e aqui eu faço uma distinção importante: eu não senti a relação de Polina e Bars como uma dependência emocional necessariamente tóxica, como algumas resenhas do livro retratam. No filme, me pareceu que duas pessoas traumatizadas encontram um lugar seguro uma na outra.
O filme mostra muito mais proteção, acolhimento e companheirismo, e sinceramente, acho que isso melhorou todo o quadro da construção da história, ao invés de manter o "enemies to lovers" até o fim. Porque já existem relações abusivas e de dependência suficientes na história. Definitivamente não precisávamos que o romance principal também fosse transformado em outra relação problemática.
O problema é que ele acontece rápido. Não é necessariamente mal construído, mas é rápido. Você olha e pensa: “Ué, vocês já estão apaixonados?” e acontece porque o filme sempre está correndo para contar os próximos acontecimentos.
Na sua conclusão, o filme simplesmente joga uma bomba atrás da outra: A ruptura entre Polina seus conflitos e sua família, a mudança para o apartamento de Bars, o telefonema e o encontro com o pai que fala que quer protegê-la de pessoas que estão ameaçando ele e sua família, fazendo com que Bars tenha que ir com eles e deixar Polina. Corta para cena de Polina acordando e levando o cachorro para passear porque Bars a deixou um bilhete, Sasha corre em sua direção na rua e dá a notícia de que o avião caiu com Bars, seu pai e família e Polina desmaia. Diversas cenas com ela ouvindo os áudios dele, e vivendo seu luto acontecem, quase algo como Bella Swan pós término em Lua Nova.

(Paris Filmes/Divulgação)
Ela volta para a casa da sua mãe e padrasto, mas não os vemos mais, o que deixa uma grande lacuna aqui.
Após as cenas de luto, a vemos em uma estação de trem, Dilara está com ela e descobrimos que irá morar na casa da avó.
Nesse ponto pensamos: “Não é possível que esse filme vai acabar aqui”. Ela senta no trem, com o gatinho lá do começo do filme, que Bars adotou, ela olha pela janela, vemos uma moto e um piloto que parece ser o Bars, mas o filme não deixa claro que é ele de fato.
Porém a silhueta do motoqueiro, o olhar e a reação de Polina, nos levam de “não acredito” para “agora sim!” e então, o filme acaba.

(Paris Filmes/Divulgação)
Sabendo que existe um segundo livro com o Bars na história, fica muito claro que isso é um gancho para continuação. Eu acho legal quando o filme deixa uma porta aberta, mas nesse ponto eu confirmei a sensação que tive durante todo o longa, de que ele estava nos “preparando para depois”. É como se nos dissesse: “Calma, isso aqui ainda não é a história completa” e esse foi o meu maior problema com Coração Partido.
Eu acho que o filme tem potencial, e talvez seja justamente por isso que eu tenha ficado um pouco frustrada. Porque eu consegui enxergar vários pontos que poderiam funcionar muito bem, como a amizade feminina, algumas cenas do romance, a ambientação, a fotografia, a construção de alguns momentos, a escolha da trilha, o potencial da história do Bars, o conflito familiar da Polina e o relacionamento entre eles, mas parece que olharam para tudo isso tendo muita coisa para contar em pouco tempo e decidiram colocar de tudo um pouco, o que acaba não deixando espaço para se aprofundar em nada, e nos distância de criar uma conexão genuína com esses personagens e a história.
O filme não te marca, é um filme esquecível. Terminei de assistir e não fiquei ansiosa por mais da história, e acho que é aí onde definimos se o filme nos convence ou não da trama, já que termina com gancho para um segundo.
Eu gosto desse tipo de história. Gosto de "enemies to lovers", gosto de "bad boy", gosto desse universo meio perigoso, gosto de romance com drama, mas Coração Partido me deu uma sensação muito forte de que eu já tinha visto aquela história em algum lugar, só que dessa vez ela estava passando rápido demais.

(Paris Filmes/Divulgação)
Em alguns momentos, parecia mais uma daquelas novelinhas verticais de aplicativo: acontece uma coisa, acontece outra, aparece um vilão, alguém salva alguém, vem uma revelação, vem outro conflito...
Quando você começa a perceber a quantidade de história que ainda precisa ser contada, fica evidente que o filme está correndo.
Talvez o livro consiga resolver isso, mas como não o li, não vou fingir que consigo comparar a profundidade da história original com a adaptação. Inclusive, fiquei curiosa para ler, justamente porque a premissa parece ter muito mais coisa interessante por trás do que o filme conseguiu mostrar, mas como filme, para mim, ficou um pouco aquém.
Coração Partido é bonito visualmente, tem alguns momentos realmente bons e tem uma amizade feminina que, sinceramente, foi uma das minhas partes favoritas, mas não conseguiu me envolver. Infelizmente, quando terminou, minha reação foi muito mais “Ah, tá. Vai ter o dois, tem mais para contar.” do que “MEU DEUS, QUANDO SAI O SEGUNDO?”
Se o segundo filme realmente vier, eu vou assistir. Porém sem muitas expectativas, apenas para saber se as pontas soltas serão de alguma forma conectadas e se valeu mesmo apostar em amarrá-las na continuação sem tentar marcar o público já de cara no primeiro.







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