Crítica | Vidas Entrelaçadas
- Gustavo Pestana

- há 18 horas
- 3 min de leitura
2026 | 1 h 46 min | Drama
(Synapse Distribution/Divulgação)
O mais novo projeto estrelado por Angelina Jolie está chegando com uma proposta sensível e intimista. Vidas Entrelaçadas é um drama em sua forma mais pura, acompanhando a trajetória de três mulheres cujas histórias se cruzam de maneira inesperada.
Maxine (Jolie) é uma cineasta americana que viaja para Paris para trabalhar em um filme para o Paris Fashion Week, durante este trabalho, recebe um diagnóstico de câncer de mama, o que desencadeia uma profunda reflexão sobre sua vida, escolhas e futuro. Paralelamente, Ada (Anyier Anei) surge como um novo rosto no universo da moda, tentando escapar de um destino pré-determinado em Sudão do Sul. Já Angèle (Ella Rumpf) trabalha nos bastidores como maquiadora, enquanto alimenta o sonho de se tornar escritora, registrando suas experiências em um ambiente tão fascinante quanto caótico: o mundo da moda e da beleza.
As três narrativas convergem em um ponto comum, revelando uma conexão silenciosa, porém poderosa, entre mulheres de origens, culturas e profissões distintas. A trama constrói, ainda que de forma sutil, um senso de solidariedade feminina que transcende fronteiras e vivências individuais.

(Synapse Distribution/Divulgação)
A premissa é instigante, mas a execução não sustenta plenamente o potencial apresentado. A narrativa concentra grande parte do desenvolvimento em Maxine, tornando seu arco dramático o mais consistente e emocionalmente impactante. Muito disso se deve à performance marcante de Jolie, que entrega uma atuação carregada de autenticidade, intensificada por sua própria história pessoal com a doença, incluindo a perda de sua mãe e avó e a decisão de realizar uma mastectomia preventiva.
Por outro lado, Ada carece de maior profundidade. Apesar da atuação honesta de Anyier Anei, que transmite vulnerabilidade e deslocamento com naturalidade, a personagem recebe pouco espaço para evoluir. Sua jornada ganha contornos mais claros apenas no desfecho, quando os destinos das protagonistas finalmente se entrelaçam, revelando com mais clareza seu arco dramático.
Angèle também sofre com o tempo de tela reduzido. A personagem interpretada por Ella Rumpf aparece de forma pontual, funcionando principalmente como elo emocional entre as protagonistas. Seja oferecendo suporte durante uma sessão de fotos para Ada ou ouvindo os desabafos de Maxine, sua presença agrega sensibilidade à narrativa. Além disso, sua função como narradora dialoga diretamente com seu desejo de se tornar escritora, reforçando a proposta metalinguística do roteiro.

(Synapse Distribution/Divulgação)
Sob a direção de Alice Winocour, o filme apresenta uma abordagem delicada e visualmente envolvente, com momentos genuinamente tocantes. Ainda assim, a fragmentação narrativa enfraquece o impacto geral. A história de Maxine se destaca como o verdadeiro eixo dramático, e um foco mais direcionado poderia potencializar ainda mais a força emocional da obra. As tramas paralelas, embora interessantes, soam desconectadas e não alcançam o mesmo peso narrativo.
Mesmo com essas limitações, Vidas Entrelaçadas é um filme sensível e relevante dentro do cinema contemporâneo, especialmente ao abordar o câncer de mama com honestidade e humanidade. A obra evita romantizações e expõe, com franqueza, o impacto emocional de um diagnóstico inesperado, ainda que algumas escolhas narrativas prejudiquem o ritmo e a imersão.
No fim, trata-se de um drama contemplativo, com forte apelo emocional e estética refinada, mas que pode não agradar a todos os públicos, especialmente aqueles que preferem narrativas mais ágeis. Ainda assim, é uma produção que dialoga com temas universais e reforça o poder das histórias femininas no cinema atual.























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