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Crítica | A Sapatona Galáctica

  • Foto do escritor: Kathy Martinoli
    Kathy Martinoli
  • há 14 minutos
  • 3 min de leitura

2026 | 1 h 27 min | Animação – Comédia – Fantasia – Romance – Ficção científica

(Synapse Distribution/Divulgação) 


A Sapatona Galáctica é uma animação adulta que mistura comédia, sátira social e jornada de autoconhecimento com uma estética colorida e traços que lembram muito as Crystal Gems de Steven Universe.

 

À primeira vista o filme pode soar caótico e até confuso, mas conforme a narrativa avança, suas camadas simbólicas vão se revelando e o que parecia apenas humor "nonsense" se transforma em um comentário bastante afiado sobre identidade, autoestima e validação social.  

 

A protagonista Saira, princesa de Clitópolis, carrega o peso de ser filha de rainhas popstars, enquanto lida com uma autoconfiança quase inexistente. Sua incapacidade de invocar o “Labris Real” (machado de dois gumes, de simbologia grega, utilizado pelo designer gráfico Sean Campbell no layout da histórica e controversa antiga bandeira lésbica) funciona como metáfora direta de sua desconexão interior. O filme constrói, com ironia e sensibilidade, a ideia de que o verdadeiro poder não é herdado, mas acessado quando se encara as próprias inseguranças.  

A Sapatona Galáctica (Synapse Distribution/Divulgação) 

(Synapse Distribution/Divulgação) 


O roteiro aposta fortemente na sátira cultural. Há referências claras à cultura pop, como a paródia da cena da janela de Crepúsculo e críticas bem-humoradas ao consumo tecnológico (o imã gigante que não vem com carregador é uma piada quase universal). 

 

Ao mesmo tempo, a obra não se furta de abordar temas mais densos: dependência emocional, padrões de beleza, indústria musical exploratória e principalmente, o machismo estrutural, representado de forma caricata pelos “Homeliens Héteros Brancos” (figuras retangulares que ecoam falas preconceituosas e estereotipadas, bem próximas a realidade). O momento em que o discurso dela só é levado a sério quando repetido por um homem é um dos pontos mais ácidos do filme. Crítica social clara e bem executada.  

 

Visualmente, o filme é bastante inventivo. A nave com personalidade própria, que muda de comportamento e até de estética conforme se conecta com Saira, é um dos elementos mais carismáticos. O uso de psicologia das cores para expressar emoções no visor da nave é um detalhe simples, mas extremamente eficaz. Já a gosma rosa alimentada por pensamentos negativos e o Labris emergindo do corpo da protagonista são exemplos de metáforas visuais diretas, porém poderosas, que dialogam com temas de energia, sexualidade e poder pessoal.  

A Sapatona Galáctica (Synapse Distribution/Divulgação) 

(Synapse Distribution/Divulgação) 


A relação entre Saira, Kiki e Willow sustenta o coração emocional da trama. Enquanto Kiki simboliza a validação externa e a dependência afetiva, Willow representa a descoberta de uma afinidade genuína. O arco de Saira se torna mais interessante justamente quando ela percebe que amor sem amor-próprio é apenas carência disfarçada.   

 

O terceiro ato aposta em reviravoltas e exageros cômicos, incluindo vilãs decapitadas, armas improvisadas com abacaxis e naves em formatos sugestivos, que podem dividir opiniões, mas mantêm o tom irreverente da obra. Já as cenas pós-créditos são um acerto, oferecendo fechamento aos personagens sem tirar o frescor da narrativa, mostrando crescimento, reconciliações implícitas e novos caminhos sem deixar muitas pontas soltas.   

 

A Sapatona Galáctica não é sutil e nem pretende ser. É uma animação que usa humor escrachado e simbolismos explícitos para falar de temas complexos, sempre equilibrando leveza e crítica. Pode parecer desorganizado no início, mas recompensa quem embarca na proposta. Entre tropeços narrativos e ideias brilhantes, o filme entrega uma experiência criativa, politizada e surpreendentemente sensível, mesmo que não seja perfeito, mas se torna extremamente relevante e divertido para quem aprecia animações adultas com humor ácido e com mensagem. 

Nota

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